A garota do trem
(Marcel Bittencourt)
Eu estava na plataforma esperando o próximo trem sentindo Guaianases chegar. Eu estava ouvindo Read My Mind no music player do meu celular. Um tanto arriscado, nos dias de hoje. Pensava na minha situação financeira, que não estava indo muito bem, mas fazer o quê. A culpa era, de fato, minha, que não fazia muita coisa para mudar isso. O assunto passou para minha vida em geral. Mais especificamente, o quão vazia era minha vida. E se eu me jogasse na frente do trem? Um espetáculo e tanto. Mas não queria quebrar meu celular. Tinha custado caro e eu sou muito apegado a essas parafernálias tecnológicas. Mas eu vivia uma vida medíocre, sem grandes ambições, sem um grande amor. Corpos passaram pelo meu, mas nada que valesse a pena lembrar naquele momento. Foi então que eu percebi que uma garota próxima a mim. Garota, sim... Tenho síndrome de Peter Pan, porque ela tinha cara de uns vinte e três a vinte e seis anos... Já era mulher, mas pra mim, menos de quarenta, garota. Ao som de Chico Buarque (sou bem eclético), comecei a observá-la. Destacava-se do resto exatamente por sua simplicidade. Em um mundo onde a vaidade reinava, um rosto sem maquiagem, uma blusa sem decote ou pernas escondidas era algo que realmente me chamava atenção. Ela olhou pra mim, surpresa com o fato de eu estar encarando-a e virou o rosto. Quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem. Mas, por algum motivo, não conseguia parar de olhar pra ela. Tsc. O trem havia chegado e entramos. Era sábado e não havia milhões de pessoas se acotovelando, travando batalhas titânicas por um maldito assento. Esperei ela sentar e sentei em um banco na sua frente. Nesse ponto, ela já estava bastante incomodada com a situação. Olhou para um lado, depois para outro, procurando um outro lugar para se sentar, mas desistiu da idéia. Creio que ela achou que seria muita bandeira, sei lá... Bom, tenho certeza que não lançava-lhe olhares cobiçosos... Pelo contrário, era um olhar curioso. Fiquei realmente curioso pra saber por onde ela já esteve. O cenho franzido, como se tivesse sido forçada a ser dura durante a vida. Tão diferente das ninfetinhas que sorriam e gritavam e gargalhavam e comentavam sobre suas últimas empreitadas sexuais e como seus supervisores eram uns escrotos e como elas conseguiriam uma promoção na operação caso aceitassem os convites libidinosos dos seus gestores e essa vida de telemarketing que é igual diarréia: todo mundo já teve a desagradável experiência de passar por isso. E nos fones, Lou Reed dizia Hey babe, take a walk on the wild side. A saída perfeita para fugir do mundo, especialmente eficiente em transportes públicos: ler. A garota tirou um livro da mochila e começou a ler. Saramago. Jangada de Pedra. Bom, por algum motivo, tinha certeza de que não seria Crepúsculo ou Paulo Coelho. Ela diferenciava-se da massa. Se eu pudesse enxergar a aura das pessoas, ali, mesmo não estando o vagão lotado, eu veria um borrão cinza e um pontinho azul. Ela seria o pontinho azul. Comecei a analisar os detalhes. Peguei minhas coisas, fui embora, não queria mais voltar, eu nunca quis presenciar o fim. Minha “ecleticidade” chocava até os mais puros. Sua mochila era grande e parecia pesada. Final de semana... Para onde ela estaria indo? Para São Paulo? Trabalho? Passeio? Encontrar no namorado? A namorada? Não havia aliança em sua mão. Na verdade, nem anel. Vaidade é para os fracos. O que tinha na mochila? Roupas? Livros? Um revólver calibre '38? Era a cara dela, levantar meter cinco balas em cinco lixos humanos e depois uma azeitona no própria cabeça. Bom, pelo menos eu gostaria de fazer algo assim. Pelo menos o celular ficaria intacto. Ou não, um maldito ladrão poderia roubá-lo enquanto eu estivesse inerte no chão. Sei lá, hoje em dia se vê de tudo. Esse mundo é uma Roma imperial moderna. Leões e cristãos. Brasil, o maior Coliseu da terra. Um estojo com itens de higiene como escova de dentes, absorvente, creme dental, pente e coisas assim? Ela parecia ser asseada, independentemente de sua simplicidade. Um maço de cigarros, talvez. Será que ela fuma? Eu estava com uma vontade louca de fumar. Maldita lei anti-fumo, que não permitia mais se fumar nas estações de trem. Roupas, definitivamente roupas. Ela estava indo encontrar o namorado. E a namorada. Que vida. Será que ela usava lingerie provocante? Uma calcinha de renda preta, um chicotinho de couro? Dominadora, talvez. Eu deveria me levantar e ir sentar-me ao lado dela. Qual seu nome? Pela idade, provavelmente Fernanda, Fabiana, Mariana, Talita ou Bárbara. Mas antes que eu tomasse qualquer decisão, um maldito obeso com cara de tarado sentou-se ao lado dela. Aqueles braços roliços, roçando “sem querer” contra os dela. Se eu tivesse uma katana, deceparia aqueles dois objetos nojentos que ele usava para levar suas mãos, segurando um Super Big Mac, à boca. Percebi que ela também se sentiu enojada. Eu queria aquele '38 pra enfiar as seis balas na barriga do gorducho. Tire suas mãos da minha garota, seu porco! Minha garota, rá, essa é boa. Sente-se aqui do meu lado, Fernanda. Vamos falar sobre literatura, cinema, música e a política mundial. Sabe, Fabiana, acho que eu te amo. Diga-me, Mariana, você quer ser minha namorada? Que notícia incrível, Talita, você está esperando um filho meu? Cuide dos nossos netos após minha morte, minha querida Bárbara. Uma família, uma vida. Ter motivos para acordar de manhã, enfrentar o mundo, juntar dinheiro, casa, carro, filhos, cachorro, gato, TV de 42 polegadas, home teather, X-Box 360. E o que ela está achando das peripécias de Joana Carda? Teria tido dificuldades para se acostumar ao estilo do Saramago ou, assim como eu, achou tranquilo? O que mais ela lê? Sartre? Maquiavel? Sêneca? Cristã? Agnóstica? Atéia? Republicana? De esquerda? Anarquistas? Mãe? Virgem? Bissexual? Diabética? Desenhista? Quem é você, garota? O que eles te fizeram? Senta aqui e me conta. Eu te protegerei. Minha Alabama. Bom, agora que encontrei o amor da minha vida, nada mais me falta. Ficaremos ricos juntos. Quando a 3ª Guerra Mundial estourar, seremos os únicos sobreviventes. Mas faremos diferente de Adão e Eva. Nossos filhos serão puros, serão ateístas. Criaremos uma sociedade onde não será necessário dominar no mínimo quatro artes marciais para se conseguir sentar no trem. Onde não existirá plaquinhas de Lei Estadual Nº 12.225/06. Você chamará meu nome enquanto dorme e eu ter abraçarei, velando seu sono. Uma casa com gazebo, limonada no portão, seriados até de madrugada. Um café e planos de fazer um filme. Pizza de sexta-feira e sexo embaixo do edredom. Fumaremos deitados na cama enquanto você me conta como foi seu dia. Uma bolha mágica, protegida pelos maiores arcanos de Devon. Ciúmes das nossas relações anteriores. Quanta bobagem, é só você que eu amo, garota. Vamos descer na próxima estação e ir no cinema. Vamos comer pipoca e tomar Coca-Cola. Deixe seus namorados pra lá, temos que estudar pra prova. Tantas coisas para fazermos juntos, e você aí, lendo Jangada de Pedra. Bom, é aqui que eu desço. Espero que você fique bem. Beijos e saiba que sempre te amarei, minha garota do trem.
Por Devon, em 2:56 PM |
Sabor Agridoce foi concluído e assim que publicado, postarei o resto aqui.
Abraços!
Por Devon, em 3:00 AM |
Capítulo 43
Segundo o dicionário Luft, masoquista é aquele que sente prazer, especialmente sexual, com o próprio sofrimento. Segundo Nelson Rodrigues, toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reclamam.
Segundo o dicionário Luft, sádico é aquele que sente prazer, especialmente sexual, com o sofrimento alheio. Sádico vem de Sade, um escritor que ficou conhecido por seus contos eróticos que continham situações de sexo misturado com violência, sofrimento, mutilação e essas coisas que os fãs de Jogos Mortais adoram.
Logo, sadomasoquista é aquele que sente prazer, especialmente sexual, em causar e sentir dor, sofrimento.
Eu, sendo quem sou, não poderia ser de outra forma.
Não me lembro quando, exatamente, descobri que sentia prazer na dor. Mas sei que sempre senti isso. Fui uma criança cruel, mas a sociedade foi me “curando”. Lembro-me vividamente de escutar os ganidos de desespero do nosso poodle, Tóbi, enquanto eu esmigalhava sua cabeça com uma pedra. Embora fosse muito nova, eu já tinha um certo discernimento em relação a vida e a morte. Senti uma sensação prazerosa de poder ao causar sofrimento e tirar a vida de um ser vivo. Foi aí que me diagnosticaram como “mentalmente instável”. Como diagnosticar uma menina de quatro anos, que acabara de perder o pai, como “mentalmente instável”, apenas por estar curiosa em compreender a finitude da vida? Talvez tenha sido pra entender como alguém pode decidir se outra pessoa é louca ou não que eu comecei a cursar Psicologia. Morri sem obter essa resposta.
Com o tempo, descobri que causar dor a mim mesma era mais prazeroso do que causar dor nos outros, pois não havia peso na consciência. Nunca fui um exemplo de vaidade e minhas unhas eram todas ruídas. Eu as roia até sangrar, arrancando as cutículas com o dente. Gostava da dor que sentia, gostava do gosto do sangue. Meu problema era o medo de me ferir de verdade, furar um olho, perder um membro, essas coisas. Sim, não era vaidosa, mas também não queria nenhuma cicatriz no rosto. Mas se fosse algo que não me prejudicasse, ótimo, vamos que vamos. Uma cena que me lembro bem foi o famigerado aniversário da minha mãe. Eu, Mauro e ela fomos jantar em um restaurante finíssimo nos Jardins. Talheres de prata e todas as frescuras que o dinheiro podia comprar. Durante o prato principal, eles começaram a discutir sobre a suposta infidelidade dela. Mauro era bem parecido com o Vitor: “tinha grana”, era possessivo, paranoico e não tinha o menor tato, afinal, jantar de aniversário não era o lugar mais propício para tratar de assuntos assim. O que mais me irritou foi a forma como eles discutiam. Mantinham a pose, pra não causar cena. Ele a chamava de vadia enquanto delicadamente limpava a boca em um guardanapo de pano. A minha raiva por tanta hipocrisia foi crescendo, crescendo, até o momento em que não aguentei: peguei o belíssimo garfo de prata e enfiei bem fundo no meu braço. Pronto, o circo estava armado. Embora estivesse delirando de prazer por dentro, comecei a gritar desesperadamente. Todos no restaurante começaram a olhar para a mesa, sem entender nada e fazendo milhões de suposições. O gerente se prontificou a chamar uma ambulância e, com toda sua discrição, não perguntou o que havia acontecido. No hospital, o médico disse que tive sorte, que eu poderia ter acertado um músculo lá qualquer e isso poderia prejudicar permanentemente o movimento da minha mão. Embora tenha gostado da brincadeira, decidi nunca mais fazer isso. Em casa, minha mãe chorou, Mauro me deu a maior bronca, me chamou de louca, desequilibrada e todos os adjetivos que eu estava acostumada a ouvir daquela boca imunda e hipócrita. Houve muitos outros episódios de autoflagelação. Pra tentar “descarregar toda a raiva que eu sentia”, minha mãe me matriculou no judô, mas quando o professor foi reclamar que eu ficava gemendo de prazer quando as garotas me agarravam e me jogavam no chão, ela decidiu me tirar da academia. É, coitada da minha mãe, não fui lá uma filha muito fácil. Acho que o problema era exatamente esse: ela era compreensiva demais. Justificava tudo que eu fazia com minha “instabilidade mental”. Esse é outro ponto que sempre me causou dúvida. Será que sou mesmo mentalmente instável? Um cara que cursou uns cinco ou seis anos de Psicologia disse isso pra minha mãe e ela assumiu como verdade absoluta, sem nem sequer questionar.
Mas de todos os prazeres que o sofrimento poderia me proporcionar, nenhum se equiparava ao prazer da dor física durante uma relação sexual. Alexander era malvadinho e nesse ponto eu não podia reclamar. Gozava horrores com ele. Durante minha época como prostituta, vez ou outra apareciam sadomasoquistas, mas eu não conseguia curtir o momento, pois eram desconhecidos e eu nunca sabia até que ponto eles poderiam chegar. Vitor perdia a ereção só de pensar em me xingar durante o sexo, então desisti. Mas com Marcus era diferente...
Marcus era um monstro sádico. Um demônio na cama.
Por Devon, em 2:51 AM |
Capítulo 42
— Olá, Bianca. Fiquei surpresa quando você me ligou.
— É... Eu fui uma babaca, me desculpe.
— Tudo bem, eu também me exaltei. Mas e então, quais as novas?
— Levei seu conselho a sério. Fui ler Nietzsche, fui ler Freud. Estou estudando Psicologia.
— Olha só, quem diria.
— É, quem diria, uma louca estudando pra tratar de outros loucos.
— Bom, eu tinha um professor na faculdade que dizia que todo psicólogo é um pouco louco. Eu mesma, já fiz análise antes de estudar Psicologia. Eu era uma garota bem perturbada. Enfim, está gostando do curso?
— Mais ou menos. O assunto é legal, mas os professores são uma bosta e os alunos são a escória do universo.
— É assim mesmo.
— E aê, sem manchas de tinta hoje?
— Acho que já passamos dessa fase. Por que você me procurou?
— Sei lá, bater um papo com uma velha amiga.
— Entendo. Sua mãe me disse que você fugiu de casa.
— Pois é. Ela contou o motivo?
— Creio que sim. Você flagrou seu namorado fazendo sexo com ela, certo?
— Isso foi o de menos. Mas não quero falar sobre isso.
— Tudo bem. Mas me conta, o que você tem feito da vida nesse meio tempo?
— Bom, eu virei prostituta.
— Entendi. E o que você pensa sobre isso?
— Não tem o que pensar. Era minha única opção. Não conseguiria morar com a minha mãe e não tinha condições de pagar aluguel ou algo do tipo. Foi o que apareceu. Mas eu já parei. Estou morando com um cara agora.
— Me fale desse cara.
— Também não tem muito o que falar. Ele é o típico macho alfa, controlador, possessivo, não me entende, essas coisas. Pra você ver, foi um sacrifício pra conseguir fazê-lo pagar essa consulta. Ele diz que é perda de tempo. Tive que contar toda minha história triste pra convencê-lo.
— E você quer terminar com ele?
— Não sei... Terminar com ele e ir pra onde? Não quero voltar pra casa da minha mãe. E tão pouco voltar pro apartamento da Adriana.
— Adriana?
— Minha colega de profissão.
— Ah.
— Com o salário que recebo hoje em dia até daria pra pagar um apartamento mequetrefe, mas daí eu teria que abandonar a faculdade. Não quero trancar a matrícula.
— Entendo... Mas me conte sobre os seus sonhos, seus desejos...
— Sonhos? Desejos? Não tenho nenhum...
Por Devon, em 2:50 AM |
Capítulo 41
Apaguei rapidamente o depoimento do Orkut. Vitor poderia ver e não seria nada legal. Ele estava se tornando cada vez mais possessivo. Não sei o que eu procurava ao fazer aquilo, mas entrei no perfil do Alexander e deixei via depoimento, como ele havia pedido, o número do meu celular. Escrevi também os horários em que ele poderia me ligar.
Ele ligou no mesmo dia. Estava no fretado, voltando da faculdade.
— Olá, há quanto tempo. — sua voz era super tranquila, como se nada tivesse acontecido. Não falava com ele desde que havia saído da casa da minha mãe. Nem sequer para terminar o namoro.
— O que você quer? — fui o mais seca possível.
— Não adianta vir com esse tom. Sei que você estava com saudades. Caso contrário, não teria me passado o seu telefone.
Embora ele tivesse razão, desliguei na cara dele, só de pirraça. Ele não havia mudado. Continuava o mesmo arrogante de sempre. Ele ligou novamente.
— O quê?
— Sei lá, a gente nunca mais se falou.
— Por que será, né? — ele conseguia despertar meu cinismo com uma facilidade impressionante.
— Você ficou grilada com o lance da sua mãe?
— Foi pra isso que você me ligou?
— Não, deixa pra lá. Queria te ver.
— E eu queria uma casa na Lua. A vida é dura.
— Pô, Bi, eu tô falando sério. — em algum momento da minha vida eu tinha achado fofo ele me chamar de “Bi”. Não dessa vez.
— Meu nome é Bianca.
— Eu sei... É Bi de bissexual.
— Aí, Alexander, como você é ridículo. Ó, meu marido está na segunda linha. Depois a gente se fala.
Desliguei. Atendi a chamada em espera.
— Oi, amor.
— Onde você tá, Bianca?
— No ônibus, voltando pra casa.
— Vai demorar?
— Não, Vitor, vou chegar no horário de sempre.
— Quer que eu te busque no ponto?
— Não precisa.
— Por quê? Não quer que eu vá te buscar?
— Não precisa, Vitor. É perto.
— Eu vou te buscar.
— Faz o que você quiser.
— Ó, não tem nada pra comer. Você não deixou janta pronta?
— Não deu, saí tarde do trabalho e fui direto pra faculdade.
— Por quê?
— “Por quê” o quê?
— Por que saiu tarde do trabalho?
— Estava com um cliente.
— Sei. Ficou tanto tempo assim com o cliente na linha?
— Era um cliente de Israel. Tinha dado problema no servidor da empresa dele e eu tive que dar suporte passo a passo.
— E demorou tanto assim?
— Aí, Vitor, o que você quer? Quer me irritar, é?
— Não tem janta.
— Eu sei, porra, eu já disse que saí tarde e não deu tempo de passar em casa. Ai, tchau.
— Eu vou te buscar no ponto.
— Tá bom, tchau.
— Te amo, tá?
Desliguei.
— Foda-se.
Coloquei os fones do meu celular no ouvido e abri o Music Player. Encostei a cabeça no vidro da janela e fiquei observando a serra escura, enquanto ouvia Walk On The Wild Side, do Lou Reed. E por que não? Sim, eu havia sido uma prostituta, mas só por forças das circunstâncias. Desde que fui morar com ele eu estava me comportando bem. Mas não era o bastante. Parecia uma maldita mancha. Parecia que eu transava com os caras por pura diversão e que se ele não ficasse vinte e quatro horas me vigiando, eu o trairia na primeira oportunidade. Pensei nas vezes que ele jogou na minha cara o fato de ter me tirado da prostituição, de ter me dado casa e comida. E por que não? Ele já me tinha como promíscua. E por que não dar razão a ele? Como se pudesse ler minha mente, Alexander me ligou.
— Então, eu quero te ver.
— Tudo bem, a aula de amanhã não é importante mesmo...
Por Devon, em 2:48 AM |
Capítulo 40
Ainda tenho lembranças felizes, porém elas são poucas, além de serem bem curtas. Não creio que exista os dois extremos: uma pessoa que seja totalmente feliz e uma totalmente infeliz. Se bem que o conceito de felicidade é bem subjetivo. Ninguém consegue ser feliz... Há apenas momentos de felicidade. Para alguns, eles são mais constantes e duram mais. Para outros, como eu, por exemplo, eles são raros e fugazes. E o resultado é esse, uma gilete, velas perfumadas e uma banheira cheia de sangue diluído. Há algumas semanas eu havia decidido me matar. Me faltou coragem, medo de sentir muita dor e não conseguir, ficar internada, dar trabalho, ser taxada de ridícula. Mas a maldita rotina me convencia, cada dia mais e mais, a realizar tal feito. Mais uma ou duas semanas e eu teria cometido suicídio. Foi nessa época que conheci o Marcus.
Embora todos os meus sonhos tenham sido destruídos, eu acreditava no amor. Gostava de Darren Aronofsky, Lars Von Trier, Chan-wook Park, mas assistia, escondida de mim mesma, comédias românticas com finais felizes. Comecei a crer que eu encontraria o sentido da vida no amor, que ao lado de Marcus eu conseguiria ser feliz, que ele faria valer a pena tudo que passei. Quando fizemos amor pela primeira vez, achei que aquela fosse a melhor foda da minha vida. Mas a próxima era sempre melhor do que a anterior. Parecia um sonho. Quando comecei a me prostituir, perdi todo o prazer que sentia ao fazer sexo. Quando fui morar com o Vitor, não sei se era porque não o amava ou se era porque nossa primeira vez havia sido uma relação profissional-cliente, não conseguia sentir tesão. A maioria das vezes fingi orgasmos só para evitar queixas ou coisa que o valha. Mas com o Marcus era diferente. A cada toque dele parecia que eu levava um choque de duzentos mil volts. Cada orgasmo era uma ida até o céu. Foi tudo que senti pelo Alexander, multiplicado por cem. Pode parecer exagero, mas só sentindo para ter uma ideia. Nossas conversas eram interessantíssimas, de igual para igual, não havia competição, como havia com o Alexander e nem enfado, como acontecia com o Vitor, que se mostrou, após alguns dias, uma porta. Marcus tinha um gosto bem parecido com o meu quando o assunto era cinema ou literatura. Assistíamos filmes juntos ou líamos livros, um para o outro. Sua voz era grave e me excitava. Certa vez cheguei ao orgasmo com ele apenas lendo Fernando Pessoa. Era, de fato, uma loucura. Comigo, tinha que ser.
Como tudo que é bom na vida, durou pouco.
Por Devon, em 2:46 AM |
Capítulo 39
Dei um pulo da cama e corri para a sala. Lá estava, ao lado da árvore de Natal, uma gigantesca caixa. Me atirei contra o embrulho.
— Bianca, vamos tomar café primeiro.
— Não adianta, Mauro. Não sei nem como ela aguentou esperar até hoje.
Quando abri a caixa, a maior decepção: a bicicleta estava desmontada. O que eu queria? Que coubesse uma bicicleta prontinha em uma caixa tão fina? Chorei. Era extremamente mimada aos oito anos.
— Vamos tomar café, depois eu monto pra você, Bianquinha. — esperneei, disse que queria que ele montasse naquele momento, mas não teve jeito. Engoli o pão e o achocolatado sem mastigar.
Após o café, Mauro colocou a bicicleta na Veraneio e fomos ao Parque da Água Branca. Enquanto Mauro e minha mãe conversavam e comiam algodão-doce, eu desfilava pelos paralelepípedos do parque em minha Calói Ceci rosa. As rodinhas traseiras me davam confiança. Lucy ia sentada no guidão, cantando músicas que ainda não haviam sido criadas.
Só parei quando um dos guardas disse que eles iam fechar o parque e que precisávamos ir embora. Chegando em casa, exausta, nem sequer tomei banho, caí na cama e adormeci. Tinha sido o melhor Natal da minha vida.
Quem diria... Eu ainda tenho lembranças felizes...
Por Devon, em 2:46 AM |
Capítulo 38
Quando virou o semestre, fiz o vestibular e passei em primeiro lugar em Psicologia na UBC, Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes. Tinha prestado pro Mackenzie e para a PUC também, mas, embora eu tivesse passado, a grana não dava. Vitor dizia que tudo bem, ele pagaria minha faculdade, mas eu não queria depender do dinheiro dele, mesmo ele constantemente dizendo que “tinha grana”. Eu não pagava uma conta em casa, mas fazia questão de arcar com a mensalidade do curso e do fretado. Arrumei um serviço meia boca em uma empresa de telemarketing que dava pra garantir meus estudos. Vitor não gostava muito da ideia, mas eu fazia questão. Não sei, talvez não quisesse que ele jogasse na minha cara depois. Eu estava apaixonada por ele, afinal, tinha que estar, certo? Pelo menos era o que eu dizia para mim mesma o tempo todo. Ele havia me tirado da chamada vida fácil e me dera casa e comida.
Eu gostava de assistir as aulas, mas não suportava os outros alunos. Nunca tinha visto tanto conflito de ego quanto vi na faculdade. Era um tal de citar Freud pra cá, um tal de citar Jung pra lá... Todos queriam aparentar ser muito mais inteligentes do que de fato eram. Grande parte dos alunos eram filhinhos de papai, tipinhos nojentos que passavam mais da metade do semestre no bar. Sim, a convivência com pessoas desse tipo foi um dos fatores que me fizeram acabar com a minha vida. Percebi que teria que aguentá-los por, pelo menos, mais quatro anos. Não dava. Eu estava extremamente desgastada, física e psicologicamente. A rotina, maldita, era minha maior inimiga. Acordar cedo, tomar café, ir trabalhar, pegar o fretado, aguentando um monte de gente que bem que mereciam um tiro bem no meio da testa, ir pra faculdade, observar a juventude na sua forma mais escrota, voltar, transar com meu “marido”, dormir, acordar cedo, tomar café, ir trabalhar, pegar o fretado, aguentando um monte de gente que bem que mereciam um tiro bem no meio da testa, ir pra faculdade, observar a juventude na sua forma mais escrota, voltar, transar com meu “marido”, dormir, sábado, assistir de dois a três filmes, jantar fora, transar com meu “marido”, dormir, domingo, acordar cedo, ir passear de metrô sozinha, almoçar em um restaurante chique, ouvindo as mais escabrosas histórias, voltar pra casa, escutar reclamações por ter saído sozinha, transar com meu “marido”, dormir, acordar cedo, tomar café, ir trabalhar, pegar o fretado, aguentando um monte de gente que bem que mereciam um tiro bem no meio da testa, ir pra faculdade, observar a juventude na sua forma mais escrota, voltar, transar com meu “marido”, dormir. Fazia um certo tempo que não era chamada de louca, mas pela primeira vez senti que estava enlouquecendo. As aulas não ajudavam muito. Se antes eu lia Marcelo Rubens Paiva e Stephen King, agora tinha que ler Satre e Nietzsche. Existem algumas perguntas que não devemos fazer a nós mesmos. Pra piorar, comecei a ler no blog do tal Devon uma história que ele estava escrevendo chamada Sabor Agridoce. Claro, não podia ser diferente, era praticamente a minha vida, escrita por um total estranho. E, pra fechar com chave de ouro, li em seu blog pessoal que, a princípio, a protagonista chamar-se-ia Bianca, mas devido a um conflito com uma conhecida dele que tinha esse nome, ele acabou mudando pra Camila. Mas uma vez tive vontade de escrever pra ele, mas achei-me ridícula: “Ei, meu nome é Bianca e você está escrevendo a minha história.” Até parece. Ok, sou mesmo uma covarde.
Bom, tudo estava indo muito mal, até que fudeu de vez: tínhamos que fazer um trabalho em grupo, com os alunos dos outros semestres. Foi então que eu o conheci. Marcus, o grande amor da minha vida.
Por Devon, em 2:44 AM |
Capítulo 37
Me lembro de muitas coisas da minha infância. Mas é engraçado que agora, nos meus últimos momentos de vida, eu me lembrei de uma banda que fez sucesso lá para o final dos anos noventa. Mamonas Assassinas. Foi um marco na música brasileira. Com letras escrachadas e tal, divertiu tanto crianças como adultos. Lembro-me que o Brasil parou e chorou no dia da trágica morte da banda. O Gugu ficou falando no assunto o dia inteiro. Quatrocentos e quarenta e cinco mil especiais a respeito. A morte prematura imortalizou a banda. Por mais de uma vez me peguei pensando a respeito... Teriam eles morrido ou tudo não passou de um jogo de marketing? Semana passada eu entrei em uma loja de discos e lá estava a famigerada capa com os cinco integrantes e as enormes tetas desenhadas. Eles fazem sucesso ainda hoje. Se alguém aparecesse com um “super” CD inédito, garanto que venderia horrores. Até eu compraria. Eu sempre penso em teorias da conspiração. O que aconteceria se eles não tivessem morrido? Lançariam mais um álbum ou dois e pronto, o público ficaria de saco cheio e em 2010 ninguém mais saberia responder quem foram os Mamonas Assassinas. Eles devem estar em alguma ilha na Oceania vivendo de diretos autorais. Também acredito que a morte do Michael Jackson foi pura armação. Muito conveniente: o cara marca cinquenta shows, vende quase todos os ingressos, morre, ninguém quer saber de devolver os ingressos e receber a grana, pois estaria abrindo mão de um super souvenir, a gravadora lança um novo álbum, um DVD e é isso, o cara tem o maior índice de vendas desde o Thriller.
Minha vida foi marcada por algumas mortes que mobilizaram o país ou o mundo... A primeira delas foi a morte do Ayrton Senna. Lembro que chorei, mais por embalo do que por qualquer outra coisa. Nunca fui fã de Fórmula 1. Mas estava todo mundo chorando, então vamos chorar... Depois vieram os Mamonas. Aí eu chorei por tristeza mesmo. Eu era fã de carteirinha. A morte da Lady Di. Nunca entendi muito esse lance. Estava jogando 007 Goldeneye pro Nintendo 64 quando minha mãe entrou no quarto dizendo que a Princesa Diana havia morrido. Quem? E tinha um agravante, ela estava com um amante, transformando o Príncipe Charles em um corno mundialmente famoso. Depois disso, só a morte da Dercy Gonçalves e Michael Jackson. A morte da Dercy virou uma piada, afinal, diziam que ela não morreria nunca. Já a do Rei do Pop virou notícia por, pelo menos, um mês. Eu dizia que se eu escutasse Beat It ou Black & White mais uma vez, cortaria os pulsos. Que ironia. Bom, definitivamente não foi por causa do Michael que eu me matei. Sim, houveram outras mortes que eu consigo me lembrar... Patrick Swayze, Heather Ledge, Brandon Lee, Renato Russo, Cazuza, Fara Fawccet (que foi sumariamente ofuscada pela morte do Michael Jackson), Raul Cortez, Golias, Vera Verão, João Paulo e Leandro (estariam eles fazendo dupla sertaneja no inferno agora?), Tom Jobim, Marlon Brando, Stanley Kubrick e mais umas figuras que morreram, mas receberam no máximo uma nota no Jornal da Globo. Tem um caso engraçado: eu me lembro de ter escutado o anúncio da morte do Danny De Vito pelo menos umas cinco vezes... Nunca tenho certeza se ele morreu ou não.
Bom, tem ainda aqueles casos em que a morte (ou a maneira como morreram) os fizeram famosos. Quando penso nisso, me vem logo a imagem da Isabela Nardoni, naquela maldita foto em que ela esta segurando o queixo com as duas mãos. Tinha um gif de humor negro com essa imagem no meu MSN. Sempre detestei a Rede Globo, mas depois do “caso Isabela”, comecei a sentir aversão tal que, se a pessoa falasse sobre ou usasse um jargão “Global”, já perdia cinquenta mil pontos comigo. Nessa categoria temos o Padre Voador, João Hélio, Ives Ota, Eloá, Daniela Perez, o casal Richentoff e sua filha psycho killer. Falando em assassinos, não posso me esquecer do Maníaco do Parque, Bandido da Luz Vermelha, Champinha, o promotor que atirou em dois playboys na Riviera de São Lourenço, a tal gangue dos Palhaços Assassinos, que sequestravam crianças para roubar os órgãos (maldito Gil Gomes, não podia ver uma Kombi com cortinas que eu já saia desesperada, pedindo socorro...) e outros tipos que a mídia sensacionalista ajudou a criar.
Como a morte pode exercer tanto fascínio assim nas pessoas? O ser humano é mal. Uma criança de 13 anos leu um discurso de sete minutos sobre preservação ambiental em uma reunião da ONU? Foda-se, coloca no canal onde está passando o caso da mãe que sufocou o próprio filho até a morte. Malditos.
Não acredito muito em espiritismo, mas gostaria de ficar por aqui mais uns dias, pra ver qual seria a reação das pessoas em relação à minha morte. Minha mãe vai chorar? Mariana vai ao meu enterro? Terá gente suficiente pra carregar meu caixão? Quanto tempo vai demorar para as pessoas pararem de prestar luto?
Droga... Não passei minha senha do Orkut pra ninguém. Como ficará meu perfil?
Por Devon, em 2:43 AM |
Capítulo 36
— Vem comigo, sai dessa vida, a gente pode se curtir. Eu tenho grana. Você pode estudar.
Eu o chamava de “O Garoto”. Não tinha 18 anos completos ainda, era um filhinho de papai. Chegava sempre de carro, mesmo não tendo carteira de motorista. Um Corsa Sedan verde escuro. Adriana havia me contado que de vez em quando isso acontecia: os clientes se apaixonavam pelas prostitutas. Os mais comuns eram os garotões e os com mais de cinquenta. Ele era bonitinho. Tinha o costume de me trazer uma caixa de bombons ou um CD de alguma banda que eu curtia. Pagava por duas ou três horas comigo. Fazia questão de ficar me beijando e me acariciando antes de me penetrar. Eu achava fofo. Depois de gozar ele acendia um cigarro (eu odiava quando os clientes faziam isso, mas o que eu podia fazer? Eles estavam pagando) e ficávamos conversando. Ele falava da faculdade, estava cursando Engenharia, falava que trabalhava com o pai e ganhava mais de três mil reais por mês. Me perguntava coisas. Às vezes eu contava a verdade, às vezes eu mentia. Ele era relativamente inteligente e educado. Me falava coisas bonitas, dizia estar apaixonado, dizia que passava o dia pensando em mim. Parecia sincero.
— Não sei, querido... Preciso pensar.
— O que tem pra pensar? Isso aqui não é vida! Esses homens te violentam.
Como se os beijos e as carícias fizessem com que fosse diferente com ele... Mas preferi não dizer nada. Afinal, ele pagava bem e era melhor do que grande parte da minha clientela. A primeira vez que o vi foi como cliente da Adriana. Eles chegaram e eu estava na sala assistindo Adaptação. Ele sentou-se no sofá, admirado com o meu “bom gosto”. Conversamos um pouco sobre filmes enquanto Adriana me olhava contrariada.
— Bom, mas acho que você não veio aqui pra falar de filmes, certo? — comentei, tentando amenizar a situação. — Minha amiga está te esperando.
— E se fossemos os três pra cama? — perguntou, com um olhar de criança pedindo um brinquedo para o pai. Threesome. Às vezes isso acontecia.
— Ah, mas aí é duzentos pra cada uma. — Adriana disse.
— Tudo bem, eu tenho grana. — ele costumava falar muito isso.
Fomos. Na semana seguinte ele veio novamente. Fizemos um ménage à trois em mais duas ocasiões e então ele disse que queria transar só comigo.
— Então deixa eu te levar pra jantar, sem pagar a hora, só o jantar. Afinal, você não é prostituta vinte e quatro horas por dia, certo?
Sabia que estava entrando em terreno perigoso, mas decidi aceitar. Ele me levou pra jantar em um restaurante chique na Vila Madalena. Depois fomos conhecer sua casa. Morava sozinho em um sobradinho na Rua Cardoso de Almeida. Subi, fizemos amor, não cobrei, ele me pediu em namoro.
— Você pode morar comigo, Bianca. Eu te amo.
Eu queria sair daquela vida e não tinha nada a perder. Aceitei.
Por Devon, em 2:43 AM |
Capítulo 35
Acordei com os primeiros pingos de chuva em meu rosto. Em poucos segundos, um verdadeiro dilúvio desabou em São Paulo. Alguns mendigos procuravam abrigo enquanto outros pareciam nem perceber que o chão estava alagando. Não achei difícil um deles morrer afogado e nem sequer perceber. Estava decidido. Eu pegaria um maldito ônibus e voltaria para casa.
Era madrugada e não havia nenhum ônibus no momento. Dinheiro para taxi eu não tinha. Decidi vagar pelo centro da cidade. Saí da Praça Ramos em direção à Avenida Paulista. Ao passar pela Rua Augusta vi os seguranças dos puteiros se encolherem embaixo das marquises para se proteger da chuva. Apenas uma ou duas mulheres se arriscavam a esperar os clientes na calçada.
— Ei, menina, ô! Vem cá.
Olhei para trás. Uma mulher de aproximadamente quarenta anos acenava para mim da varanda de uma casa. Estava demasiadamente maquiada e logo concluí ser ou uma prostituta velha ou uma cafetina.
— Onde você vai com essa chuva, menina?
— Para casa.
— E onde você mora?
— Longe.
— Não quer entrar e esperar essa chuva passar?
— Não, obrigado.
— Não seja boba, menina, eu tenho toalha e roupas secas.
— Não, obrigado, dona.
Nesse momento, uma garota mais nova do que eu apareceu na porta, ao lado da mulher.
— Que foi, Joana? — indagou a garota.
— Essa menina boba, está aí, encharcada e não quer entrar e esperar a chuva passar.
A garota olhou pra mim e perguntou meu nome. Eu respondi o primeiro nome que me veio a mente.
— Olha, Mariana, sim, sou puta, sim, aqui é uma pensão de putas, mas isso não quer dizer que se você colocar os pés nessa casa terá que virar puta. É só pra se secar.
A chuva estava realmente forte e eu estava com frio e com fome. Que mal poderia haver nisso? E era como a garota dissera: não vou virar puta só porque pisei em uma pensão de putas...
Entrei.
Por Devon, em 2:42 AM |
Capítulo 34
I tried so hard
and get so far.
But in the end,
it doesn't even matter.
Por Devon, em 2:41 AM |
Capítulo 33
Perdi o fio da meada. Parece até que fiquei um mês sem pensar. Acho que foi a primeira morte. Nunca pensei nisso. Quantas vezes a gente morre e volta antes de morrer definitivamente? Do nada me veio o filme Veronika Decide Morrer. O livro já possui um valor bem duvidoso. O filme então... Após ingerir uma porrada de comprimidos, a protagonista decide mandar um email para uma importante revista de moda. Que absurdo. Acho que a última coisa que faria minutos antes da minha morte seria mandar um email pra quem quer que seja. Não deixei bilhete, não deixei nada. Minha mãe vai encontrar meu corpo esvaído em sangue e jamais saberá o motivo. Provavelmente vai achar que o trauma que ela e o Alexander me causaram foi tanto que me levou ao suicídio. Fatos como esse que me impediriam de escrever um livro. Jamais publicariam um livro contendo cenas de incesto. A sociedade “evoluiu”, mas continua cristã. Tudo é permitido. O mundo é gay. “Minha filha era bissexual.” ou “Eu tive uma amiga que gostava de meninos e meninas.” “O que aconteceu com ela?” “Se matou.” “Deve ter sido por isso.” No fundo pensarão: “Quem não é hetero, não tem Deus no coração e quem não tem Deus no coração, não encontra sentido na vida, quem não tem sentido na vida acaba se matando.” Cortei meus pulsos, fato, mas Deus ou minha bissexualidade não tiveram nada a ver com isso. Onde eu queria chegar? Ah, é mesmo, mesmo a sociedade sendo tão permissiva, existem certas coisas que não sei se um dia serão aceitas. Pedofilia, incesto, necrofilia... Minha vida é um compilado de tabus. Se não fosse tarde demais, eu me levantaria e desenharia um smile no espelho com meu sangue. Ou não. Não tenho intenção de chocar ou causar caso. Só quero desligar. Esquecer que um dia existi. E quero que as pessoas se esqueçam de mim. Mais um cigarro cairia bem agora. Uma morte de cinema. Um último cigarro, um último orgasmo. Velas e banheira repleta de água rubra. Uma cena e tanto. Será que se alguém me visse agora diria “Ei, que garota patética. Até na morte ela foi influenciada pelos filmes. Esse cenário é uma cópia mal feita do filme Regras da Atração.” Não, ninguém jamais assistiu esse filme. Ao mesmo tempo que quero morrer e ser esquecida, queria ter gravado um vídeo e receber mais de dez mil visitas no You Tube.
Que porra, até na hora de morrer sou confusa.
Por Devon, em 2:38 AM |
Capítulo 32
Quando eu sai de casa, não tinha para onde ir. Decidi seguir para a casa da Mariana. Era a minha única amiga. Sabia que minha mãe não ia me procurar. Ela estava tão traumatizada quanto eu. Precisávamos de um tempo longe uma da outra. Contei o que havia acontecido para Mariana. Ela ficou horrorizada, me julgou, me condenou... Ela se considerava A esclarecida, A mente aberta, A agnóstica. Era tudo baboseira. Quando terminamos, ela disse que foi porque não gostava mais de mim como amante. Tudo mentira. Tinha certeza de que ela ainda me amava, mas tinha medo do que a família, a sociedade ia pensar. Hipócrita do caralho. Mas era minha única amiga.
A mãe era um dos seres mais desprezíveis que eu conheci: uma carola nojenta, se dizia modelo de integridade, de virtude. Ia na igreja todo domingo, mas só ia pra poder criticar os vizinhos, os amigos, o marido, a filha, o mundo. Escutava os sermões do padre, dizia adorar Deus, aparecia sempre com um provérbio ou uma citação bíblica, mas não sabia o que era amor, o que era perdão, o que era bondade. No primeiro dia em que fiquei lá, ela sentou comigo, falou por mais de duas horas, disse que a família era a coisa mais importante do mundo sob os olhos de Deus, disse que ia me acolher, pois eu era uma ovelha desgarrada do senhor, que minha mãe havia se perdido quando se casara com o Mauro após a morte do meu pai, e que, pra piorar, não conseguira nem manter o segundo casamento. Disse que minha mãe virara as costas a Jesus, que ela só encontraria paz quando voltasse para a morada do Senhor, blá, blá, blá... Amén. Eu precisava de um teto e de um prato de comida, por isso escutei calada, mas quando ela terminou o sermão dizendo que se eu me insinuasse para o marido dela, ela me colocaria no olho da rua, tive vontade de me levantar e passar a noite embaixo de uma marquise qualquer. Acabei ficando, pois chovia muito, e qualquer lugar era melhor que minha casa, qualquer coisa era melhor que encarar minha mãe.
No segundo dia, a carola nojenta pediu para eu ajudá-la nas tarefas da casa. No terceiro dia ela mandou. No quarto, ela já não fazia mais nada, fiquei incumbida de fazer todo o serviço doméstico. “Se quiser ficar aqui, vai ter que me ajudar. Deus sempre recompensa os trabalhadores.” Mariana nunca estava em casa, era aula de inglês, aula de balé, aula de canto. Quando chegava em casa, ia assistir novela com a mãe e depois subia, tomava um banho e dormia.
O pai de Mariana era um coitado. Foi totalmente subjugado pela megera e não tinha voz ativa nenhuma na casa. Mas era um bom homem, dava o sangue pela família. Trabalhava de segunda a sábado, das seis às dezoito, folgando no domingo.
Domingo era dia de ir à igreja. Todos iam, inclusive eu. “Se quiser ficar aqui, vai ter que aceitar Jesus.” Durante toda a missa, eu chorava em silêncio. Era pecado pra cá, inferno pra lá, sacrifício, morte, arrependimento. Existia tudo nas palavras do padre, menos mensagens de amor. Pobre Jesus, se ele pudesse ver como os homens distorceram sua mensagem, ficaria extremamente infeliz.
Após o jantar, Mariana e a mãe sentavam no sofá da sala pra assistir novela. O pai ficava na cozinha, me fazendo companhia enquanto eu lavava a louça. Era um bom homem. Era possível perceber que, em algum momento da vida dele, ele chegou a amar a esposa. Mas o amor havia se esvaído há tempos. Ele tinha planos, tinha disposição, tinha capacidade de correr atrás de seus sonhos, mas a esposa tolhera qualquer vontade de melhorar de vida. “Você tem uma casa, uma esposa, um emprego e uma filha. Contente-se com o que Deus lhe deu. Cobiça é um dos sete pecados capitais.” Como eu odiava aquela mulher. Todo dia, antes de dormir, pensava em pelo menos três maneiras diferentes e excruciantes de matá-la. Sem a amizade de Mariana, o que me impediu de enlouquecer de vez foi minha relação com seu pai. Ansiava a hora da novela, pra poder conversar com ele. Era inteligente, culto, um pouco desinformado em relação ao mundo atual, mas mesmo assim, uma boa companhia. Após o fatídico episódio com minha mãe, terminei meu namoro com Alexander, pois não conseguia olhar para a cara dele também. Eu me sentia muito só e meu único contato sincero com um ser humano era com o pai da Mariana. O resultado era inevitável: acabamos tendo um caso. Durou umas duas semanas e foi bem agradável, mas sua esposa acabou descobrindo. Fugi correndo, com ela atrás, segurando uma faca e me chamando de “puta” e outros adjetivos eu nunca imaginei que uma carola conhecesse.
Por Devon, em 10:22 AM |
Capítulo 31
Na vitrola, Perfect Day, do Lou Reed. Eu estava deitada, tentando sincronizar as batidas da cabeça de Adriana na cabeceira da cama com as batidas da música. Ela estava com um cliente e eu queria descansar, porque em duas horas, eu atenderia um dos meus. O apartamento era pequeno, mas a gente tentava deixá-lo com o melhor aspecto possível. Bom, pelo menos eu tinha meu próprio quarto e não precisava bancar a empregada para a mãe da Mariana. O ano estava quase acabando e eu já havia decidido: com o dinheiro que eu estava ganhando daria pra dividir o aluguel, terminar de pagar os móveis que comprei para o meu quarto e começar a minha faculdade de psicologia no próximo semestre. Ninguém precisava saber como eu estava pagando o curso, mas também não seria vergonha nenhuma. Quantas garotas se prostituem para pagar a faculdade?
O quarto cheirava a sexo, eu cheirava a sexo. Sexo. Sexo, uma coisa que eu gostava tanto, se tornou um ofício, parte do meu dia-a-dia. Fechei os olhos. Adriana tinha terminado e estava se despedindo do cara. Comecei a lembrar da primeira vez que eu e Alexander fizemos amor. A minha primeira vez. Pelo menos, eu a considerava a minha primeira vez. Primeira vez que me entreguei. Nada forçado. Foi tão bom. Estávamos apaixonados. Bom, pelo menos eu estava.
Namorávamos há mais de seis meses. Ele era virgem. Graças à um cretino fedendo a álcool e cigarro, eu não. Eu estava superando o trauma aos poucos. Nos primeiros dias após o estupro, eu não conseguira nem permitir que Alexander me tocasse. Mas conforme os dias iam passando, eu ia “esquecendo” e cedendo. É, esquecendo entre aspas porque certas coisas a gente nunca esquece. Apenas aprende a conviver com elas, apenas aprende a torná-las insignificantes. Estávamos no quarto dele, assistindo De Olhos Bem Fechados. Alexander era fissurado em Kubrick. Eu assistia ao filme pela terceira vez, ele, pela sei-lá-quantonésima vez, sabia quase todas as falas de cor. Lembro-me que as cenas de sexo do filme me deixaram excitada. Comecei a acariciar o rosto de Alexander, ele começou a acariciar minhas costas. Normalmente eu não tinha permissão pra tirar a atenção dele durante os filmes, mas acho que como ele já tinha assistido De Olhos Bem Fechados pelo menos umas nove vezes, não se importou. Além do que, coitado, há mais de seis meses que eu estava deixando o menino louco de tesão. Começamos a nos beijar enquanto nos despíamos, eu, com a graça de uma borboleta, ele, desajeitado como um rinoceronte preso em uma armadilha para ursos. Comecei a esfregar meu corpo nu contra o dele. Fazia calor e estávamos suando. Ele começou a passar a língua pelo meu pescoço, queixo, seios, ventre e parou em meu sexo. Eu puxava seus cabelos com intensidade, forçando sua cabeça contra minhas coxas, desejando colocá-lo dentro de mim. Me contorci de prazer quando atingi o ápice. Ele deitou-se ao meu lado e eu o beijei demoradamente. Passei minha mãos pelo seu peito magro e em seguida comecei a masturbá-lo. Quando seu pênis estava realmente entumecido, o puxei para cima de mim. Ele me penetrou com força e eu gritei de dor e prazer. Assim era bom. Eu queria, ele queria. “Isso, meu amor, isso...” Rápido e com força. “Isso, isso, isso, ISSO!” Gozamos juntos. Rimos juntos. Ele se virou, ofegante. Abriu a gaveta do criado mudo e pegou um cigarro. Odiava quando ele fumava, mas não ia quebrar o clima. Fiquei calada. Olhei para a TV. O filme estava pausado. Quando ele pausou o filme? Quando ele teve tempo pra pensar nisso? As pessoas são estranhas. Muito estranhas.
Adriana havia saído do banheiro. Estava enrolada em uma toalha, com os cabelos molhados. Colocou a cabeça para dentro do meu quarto e perguntou se eu queria comer alguma coisa. Respondi que estava sem fome, que eu tomaria um banho e depois me encontraria com o meu cliente no lugar marcado. Na vitrola, Frank Sinatra, Can't take My Eyes Off Of You.
Sexo. Sexo, uma coisa que eu gostava tanto, se tornou um ofício, parte do meu dia-a-dia.
Por Devon, em 10:21 AM |
Capítulo 30
Eu estava no meu cadeirão. Sobre a mesa, um apetitoso peru de Natal. Minha mãe conversava animadamente com a minha tia e meu pai abria mais uma garrafa de vinho. O marido da minha tia contava alguma coisa que eu não vou lembrar. Eu era muito pequena. Não tinha nem dois anos ainda. Na vitrola, Beatles, como sempre. Lucy in The Sky With Diamonds. Isso eu lembro, por conta da melodia. Minha mãe se levantou, foi até a cozinha e trouxe mais uma travessa com arroz. Na volta, ela sentou no colo do meu pai e eles se beijaram. “Ho, ho, ho, feliz Natal.”
Uma memória nova. Era muito pequena, acho que essa memória ficou guardada bem lá no fundo do meu subconsciente. Agora, nos meus últimos momentos de vida, consegui alcançá-la. Uma época mais feliz. Quando será que tudo começou a desmoronar?
Por Devon, em 10:20 AM |
Capítulo 29
Eu estava deitada na minha cama, com as duas mãos nas têmporas. No computador, Dead Boy's Poem, do Nightwish, tocava baixinho. A luz do quarto estava apagada. Minha cabeça parecia que ia explodir. “Câncer no cérebro, só pode ser isso...”
Para piorar, o episódio que acontecera naquela tarde ficava repetindo na minha mente, como um videotape.
Era domingo e eu estava fazendo meu costumeiro passeio de metrô quando, do nada, Lucy apareceu ao meu lado e disse:
— Volte para casa.
— Por quê?
— Porque você não merece isso que estão fazendo com você.
Pisquei e Lucy havia sumido. Eu sempre fazia o que Lucy me mandava fazer.
Desci na estação Santana e fui andando até minha casa. Normalmente eu só voltava depois das quatro. No meu celular, o relógio mostrava onze e trinta e oito. Entrei e passei pela sala. Minha mãe não estava assistindo TV. Passei pelo meu quarto. Vazio. A porta do quarto da minha mãe estava entreaberta. Ouvi ruídos típicos de uma relação sexual. Minha mãe estava fazendo sexo. Normalmente eu ignoraria, mas há mais de duas semanas que eu não transava com o meu namorado. Acabei ficando excitada. Me aproximei da porta, em total silêncio e observei o casal. O homem estava por baixo e ela cavalgava em seu membro, de costas para mim. Então eu reconheci as roupas que estavam no chão. Entrei no quarto e fiquei paralisada. Depois de alguns minutos sem que eles me notassem, reuni forças e indaguei.
— Alexander?
Minha mãe deu um pulo, como se tivesse levado um choque de cinco mil volts. Cobriu-se rapidamente com o lençol e me olhou, aterrorizada. Olhei para o meu namorado, esperando alguma explicação. Sua resposta foi a última coisa que eu imaginava que ele diria:
— Venha, Bianca, junte-se a nós.
Entropia. Minha “alma” saiu do meu corpo e eu já não tinha mais domínio sobre meu corpo. Não resisti quando ele se levantou, pegou minha mão e me levou para a cama. Quais as chances disso acontecer? Uma em um milhão. Em uma família normal isso jamais aconteceria. Em uma família normal uma mãe jamais se deitaria com o namorado da filha. Muito menos se deitaria com o namorado e a filha juntos. Em uma família normal. O Mauro nunca se engraçou comigo porque sabia que minha mãe era tão ou mais doente do que eu.
Eu, Alexander, minha mãe. Beijos, línguas, carícias, fluídos. Eu, Alexander, minha mãe. De novo e de novo, na minha cabeça. Eu, Alexander, minha mãe. Eu gozei, ele gozou, ela gozou. Eu, Alexander, minha mãe. De novo e de novo, na minha cabeça. A luz do quarto estava apagada. Minha cabeça parecia que ia explodir. “Como vou conseguir olhar pra ela novamente?”
— Como vou conseguir olhar pra ela novamente? — disse em voz alta. Com a têmpora latejando, levantei-me da cama, acendi a luz e comecei a colocar minhas coisas na mala de viagem.
Quando terminamos, ele acendeu um cigarro, vestiu a roupa e foi embora. “Não se culpem. Isso é normal. Somos, antes de tudo, animais. Temos instinto. Incesto é coisa criada pelos cristãos.” ele disse. Porra nenhuma. Édipo arrancara os olhos muito antes de Jesus nascer. É fácil pra ele. No bar, com os amigos, vai contar pra todo mundo que comeu mãe e filha. Os amigos medíocres vão idolatrá-lo. É fácil pra ele. Enquanto eu limpava minha virilha, minha mãe veio tentar me abraçar, chorando, pedindo desculpas. Retornei da entropia, me esquivei e sai do quarto, sem dizer nada, sem olhar pra trás. Liguei meu computador, coloquei minha playlist pra tocar e me joguei, nua, na cama. Minha cabeça estava explodindo.
Na calçada, olhei para minha casa e vi minha mãe na janela. Ela sabia que eu estava indo embora. Não tentou me impedir. Provavelmente ela também não conseguiria mais viver comigo. Seus lábios se mexeram em um “eu te amo” silencioso.
Por Devon, em 10:20 AM |
Capítulo 28
Eu estava sentada no banco do metrô ouvindo meu MP3 player. Minha playlist com quase 2 gigas estava sendo repetida pela segunda vez. Passar o domingo dentro de um vagão do metrô ouvindo música era algo normal pra mim. Acordava, tomava café, brincava com o Mozart, tomava banho, colocava uma roupa relativamente confortável e seguia em direção à estação Paraíso. Comprava quatro bilhetes do metrô e entrava no vagão. Passava a manhã inteira sentada no banco, ouvindo música e observando as pessoas. Tenho certeza que o pessoal da segurança olhava pra mim através das câmeras e diziam: “Olha lá, a louca voltou.”
Quando eu ficava com fome, descia em uma estação aleatória da Avenida Paulista, entrava em um restaurante aleatório (mas que fosse extremamente chique e extremamente caro) e almoçava, sozinha. Gastava quase duzentos reais por mês só em restaurantes chiques. Normalmente eu continuava ouvindo o meu MP3, mas vez ou outra eu tirava os fones do ouvido e começava a prestar a atenção nas conversas em minha volta. Cada história que seria possível escrever um livro. O paizão que queria comer a melhor amiga da filha, a socialite que estava apaixonada pela empregada, o pitboy que só conseguia ter ereção quando estava espancando os “seres inferiores”, a patricinha que estava viciada em cocaína e faria de tudo pra conseguir mais um pouco de pó... E eles conversavam essas coisas enquanto almoçavam. Era assim: “adoro fazer sexo oral no meu cachorro” e lá ia uma bela garfada da macarronada. Tinha muita conversa chata, sobre empresa, trabalho, telemarketing... Mas eu tinha uma espécie de radar. Era batata: eu tirava os fones e em menos de cinco minutos conseguia ouvir uma história que faria o padre da paróquia tomar um porre de água benta. As reações também eram as mais variadas e mentirosas. O amigo que fazia de conta que era normal deixava metade do filé no prato. A vizinha que achava um absurdo olhava para a amiga com inveja. A suposta virgem, que dizia pro pai da amiga que seria um absurdo ela dormir com ele, roçava, por baixo da mesa, seus belos pés brancos nas coxas do coroa. Eu só fazia isso após terminar meu almoço, enquanto tomava um cafezinho, porque sabia que se eu prestasse atenção nessa hipocrisia nojenta que me cercava, acabaria perdendo o apetite.
Depois do almoço eu costumava passear pela avenida, observando os prédios e as lojas. Se estivesse passando alguma coisa boa no cinema, eu entrava e assistia. Sempre sozinha. Meus namorados nunca entenderam isso. Todo domingo eles queriam sair ou ficar em casa e tal. Sempre com aquela conversa de que “já não nos vemos a semana inteira, chega final de semana, temos que aproveitar” e coisas assim.
Após o passeio pela Paulista, voltava para o metro e ficava mais umas duas a três horas passeando pelas estações, observando as pessoas e ouvindo música. Sempre sozinha.
Parando pra pensar, a maioria dos meus momentos de rara felicidade aconteceram enquanto eu fazia esse programa comigo mesmo no domingo. Eu era a minha melhor companhia.
Por Devon, em 1:18 PM |
Capítulo 27
O que foi feito da minha vida? O que é felicidade? Quem sou eu? Afinal, sou louca ou não? Pensamentos que sempre povoaram minha mente.
Relembrando os piores momentos da minha curta e insignificante existência, percebo que não consegui manter esse sentimento de felicidade por mais do que um ou dois dias. E agora, com minhas lembranças chego a conclusão de que felicidade plena é inalcançável. Nenhuma lembrança muito feliz. Só desgraça, só tragédia.
Conforme foi passando o tempo, fui perdendo interesse em filmes, livros ou coisas felizes. Histórias com o clichê “felizes para sempre” começaram a me nausear. Só me interessava por desgraças. Só me interessava por tragédias.
Lembro-me que em algum momento da minha vida Rei Leão foi meu filme preferido, assim como O Pequeno Príncipe foi meu livro. Hoje, se me perguntarem, talvez eu responda Magnólia ou Dançando no Escuro e Crime e Castigo. Muitos dizem que isso é evolução, que sou uma mulher inteligente, intelectual, cult... Mas na verdade, sou apenas uma miserável, uma infeliz que convive com um bando de pessoas infelizes. Provavelmente não foi o Cypher do Matrix que disse isso, mas foi nesse filme que eu a ouvi pela primeira vez e desde então fico até tarde acordada pensando nessa maldita frase: “A ignorância é uma benção.”
Frequento a psicóloga desde os quatro anos. Desde os quatro anos que sou bombardeada com questões existenciais. Uma vadia que cursou psicologia por cinco anos em uma universidade de merda, ganhou um diploma fajuta e acha que sabe o que é melhor para uma criança. Ela não sabe de nada. Freud não sabe de nada. Dewey e tantos outros canalhas que generalizam o ser humano, se achando os sábios. Não sei das outras pessoas, mas sei de mim. Sei que frequentar a psicóloga nunca me fez bem. Suas malditas perguntas tiradas de um livro idiota fizeram com que eu pensasse demais na vida, filosofasse desnecessariamente e com isso, perdesse grande parte da minha infância.
Some isso à 19 anos de piadinhas e comentários a respeito da minha condição mental e você terá uma mulher (ou garota?) confusa.
Eu vejo as coisas e penso a respeito. Penso muito a respeito. Quase uma monomania. Quase um personagem dos contos de Poe. Eu vejo as pessoas. Vejo suas atitudes. Elas me fascinam e me cansam. Tudo me cansa. Até mesmo Mariana. Até mesmo Alexander. Até mesmo Marcus. Até mesmo eu.
Eu deixo o mundo dos devaneios e retorno a realidade. A água invadindo minha corrente sanguínea dói. Dói muito. Eu sinto vontade de me levantar e enrolar meus pulsos em toalhas brancas. Me imagino fazendo isso e imagino as toalhas se tornando vermelhas com o meu sangue. Minha mãe ficaria brava. “Você manchou as toalhas italianas.” ela diria. Não sei se a dor me causa prazer agora. Sempre achei isso estranho. Não sei se posso ser considerada masoquista, mas, com exceção do estupro, todas as relações sexuais que envolveram dor foram as que me levaram aos orgasmos mais intensos. Mais uma vez eu penso em Marcus.
Por Devon, em 1:18 PM |
Capítulo 26
Eduardo tinha ido ao tribunal e a Soraia tinha saído para o almoço. Eu estava sozinha no escritório. Havia sido contratada pelo programa Jovem Cidadão. Era um contrato de seis meses, mas Eduardo disse que se eu fizesse um bom trabalho, me registraria. Eu estava animada. Tinha 16 anos e era o meu primeiro trabalho remunerado.
Estava conversando com a Mariana quando eles chegaram: dois rapazes, com idade entre 20 e 25 anos. Um era branco, careca e segurava uma pasta. O outro era negro, usava um boné e mantinha as duas mãos nos bolsos do moletom. Parecia nervoso.
— Pois não? — eu disse, minimizando o programa de mensagens instantâneas.
— Escuta, moça, um amigo nosso foi preso e queríamos saber quanto custa pra vocês defenderem o cara. — indagou o branco, que parecia mais calmo.
— Sinto muito, senhor, mas nós só trabalhamos com cível e familiar.
O negro ficava olhando ao redor, muito assustado. Parecia que estava procurando alguma coisa.
— Cadê seu chefe? — ele perguntou.
— O doutor Eduardo não está no momento, ele teve que...
Mas não cheguei a terminar a sentença. O rapaz sacou um revólver do moletom e apontou para o meu rosto. O branco imitou seu companheiro, tirando uma automática da cintura.
— Todo mundo fique calmo, isso é um assalto.
Tentei me controlar, mas comecei a rir. Os dois se olharam e depois olharam para mim, sem entender nada.
— Tá rindo do que, porra? Quer levar um tiro na cara?
Eu era, definitivamente, louca. Como explicar que eu estava rindo porque ele tinha usado exatamente a mesma frase que um dos personagens usou no Pulp Fiction. Bom, se eu tivesse sorte, talvez eles fossem cinéfilos e curtissem Tarantino. “Ei, adoro esse filme! Eu sempre quis dizer isso!” Ri mais alto com a idéia.
Bom, o negro não era apreciador da sétima arte. Ele se aproximou e bateu com a coronha do revólver na minha cabeça. Cheguei a apagar por alguns segundos. Senti o sangue quente escorrendo pela minha face.
— Pega leve, mano, a gente não precisa matar ninguém!
— Ela tava rindo, porra!
— Tem umas pessoas que reage diferente, mano. Vai lá, mete a fita nela.
Eles amarraram meus pulsos e meus tornozelos com silver tape e depois me arrastaram para para um canto da sala.
— Aê, amiga, não vamos tapar sua boca, mas se tu gritar, a gente te mata, beleza? — O branco barganhava comigo, enquanto o negro mantinha a arma apontada para mim. Balancei a cabeça, afirmativamente. — Fica calma que tudo vai sair bem. A gente só queremos o dinheiro.
Tentei me conter pra não rir do esforço que ele fazia pra tentar falar corretamente e dessa vez obtive sucesso.
Reviraram o escritório e no fim levaram todo o dinheiro do cofre, algo em torno de três mil reais, e um notebook. A cada dois minutos o negro apontava a arma pra mim e dizia coisas como “Se você fizer alguma gracinha a gente descarrega o cano em você.”
Antes de sair, o branco se virou e perguntou:
— Por que você riu quando eu disse que era um assalto?
Não me contive.
— Porque você falou exatamente a mesma frase que um dos personagens usou no Pulp Fiction.
Ele riu.
— Eu sei, adoro esse filme! Eu sempre quis dizer isso! — e foi embora.
Por que será que tudo na minha vida tem que ser tão surreal?
Por Devon, em 1:17 PM |
Capítulo 25
Era o último dia do segundo ano do ensino médio. Eu havia ido até a escola pra me certificar de que não ficara de recuperação em nenhuma matéria. Sabia que era desnecessário. Sempre fui a melhor aluna da sala. Acho que essa história de que nem todo louco é gênio mas que todo gênio é louco é verdade. Sou... ou era... uma garota muito inteligente. Após terminar o ensino médio, tinha intenções de tentar psicologia em uma universidade federal ou coisa assim. Talvez tivesse que estudar um pouco, mas sabia que conseguiria. Mas isso era o futuro. Meu presente estava ali, olhando as médias com o mesmo desinteresse que eu. Minhas notas só podiam ser comparadas às de uma pessoa: Alexander. Outro gênio, outro louco.
Era isso. Minha mãe estava estudando a possibilidade de se mudar de bairro, se mudar para um bairro um pouco mais nobre, pois havia recebido uma promoção no trabalho dela. Eu nunca fiz muita questão de entender o que ela fazia, mas sabia que ela trabalhava muito. Tinha a ver com contabilidade. Ela é realmente boa com números.
— Não seja hipócrita. Você sabe que passou. — Alexandre estava postado atrás de mim. — Você é até mais inteligente do que eu.
— Estou lisonjeada, mas abismada com sua falta de humildade.
— Humildade é a máscara dos fracos.
— E você sempre com esses comentários super filosóficos, hein?
— Então você e a Mariana terminaram? — ele abaixou o tom ao perguntar.
— Não quero falar sobre isso.
— É uma pena. Ou não.
— Como assim?
— Quando descobri que vocês estavam ficando, achei que fosse uma coisa passageira. Mas então eu via como vocês se olhavam, todos os dias, durante as aulas, e deduzi que vocês estavam namorando. Mas já tem quase um mês que seu olhar é triste, de abandono. Meu cachorro, Polux tinha esse olhar quando mandamos sacrificar Athena, sua companheira.
— Está me comparando com um cachorro?
— Bom, se isso a fizer se sentir melhor, estou te comparando com o meu cachorro, o cão mais inteligente do mundo.
— Na verdade, não faz. Mas o que te interessa?
— Você me interessa. Sempre achei você diferente. Diferente dessas Mariazinhas que tem na classe. Quando descobri que você era bissexual então, fiquei doido pra ficar com você.
— Quem disse que sou bi? Posso muito bem ser apenas lésbica.
— Você me subestima, Bianca. Sei que você estava curtindo namorar a Mariana, mas também percebi que você olhava pra mim de um jeito diferente.
— Deus, como você é pretensioso.
— Deus não existe.
— Eu sei, é só uma força de expressão! O que eu deveria falar? “Subterfúgio-criado-pelo-homem-para-justificar-seus-atos, como você é pretensioso?”
Ele avançou e colocou a mão em meu quadril e me puxou para junto do seu corpo. Seu beijo deixou cada átomo do meu corpo em chamas. Por quase dois anos eu antecipava aquele momento. Sua barba por fazer arranhou meu queixo e eu coloquei minha mão por entre seus cabelos e apertei com força.
Após alguns segundos que mais pareceram toda a eternidade do universo, me desvincilhei de seus braços, virei o rosto e cuspi no chão.
— Éca, odeio gosto de cigarro!
Ele riu. Eu ri também. Nos abraçamos mais uma vez, em uma fúria apaixonada. Estávamos só no mundo. Todos os alunos que pararam para nos observar ou mesmo para fazer piadinhas já não existiam.
Por Devon, em 11:59 AM |
Capítulo 24
— E é isso, Bianca. Acho que será melhor assim.
— Não, Mariana, por favor, não... Eu te amo.
— Você não me ama... Você só está confusa.
— Não! Está tudo muito claro! Pela primeira vez na vida, estou lúcida! Eu te amo!
— Não... Foi só uma fase! É normal.
— Puta que pariu, você não entende... Não é só uma fase!
— Sinto muito, amiga... Ainda somos amigas, certo?
Eu apanhei o cinzeiro de vidro e joguei com toda a força no chão. Um dos cacos passou muito perto do meu tornozelo. “Você não entende.”
Meus olhos vertiam lágrimas como duas cataratas. Uma crise de soluço começou, me deixando sem ar. Eu queria morrer. Me joguei na cama.
— Não é justo... Eu te amo tanto... Tanto...
Mariana se levantou, apanhou sua bolsa e saiu, fechando a porta do quarto atrás dela. Escutei passos até a porta da rua, mas não ouvi a maçaneta sendo girada. Depois, passos voltando para o quarto. Ela abriu a porta e se atirou em meus braços. Afaguei seus cabelos macios e cheirosos.
— Eu também te amo, Bianca. Mas não podemos mais fazer isso... Minha família jamais aceitará.
— Dane-se a sua família. Não precisamos dela.
— Sinto muito... Ainda sou muito jovem... Não tenho como me sustentar.
— Então seja minha, uma última vez...
Nossa saliva e nossas lágrimas se misturaram em um beijo apaixonado, com sabor de despedida.
Por Devon, em 11:58 AM |
Capítulo 23
Marcus. Meu Marcus. Meu anjo, meu demônio, meu amor. Onde você estiver, estou indo te encontrar.
Para sempre sua, Bianca.
Por Devon, em 11:58 AM |
Capítulo 22
Eu passei grande parte da minha vida trancada em meu quarto. Meu quarto era a minha vida. Meus filmes, meus livros, minha música e meu computador. A Internet era a minha porta para o mundo real. É estranho considerar o mundo virtual mais real que minha própria vida.
Além do MSN, Orkut e coisas assim, gostava de ficar entrando em blogs alheios. Eu costumava acompanhar um em especial. O autor assinava os posts como Devon. Gostava desse blog porque muita coisa que lia me fazia refletir sobre minha vida. Engraçado essa coisa de se identificar com a ficção. Eu tinha muito disso. Me identificava com os filmes, com as músicas, com os livros. Quando lia os posts dessa pessoa, em especial os textos que ela escrevia, eu ficava assustada com as coincidências e pensava no livro O Mundo de Sofia. Cheguei a acreditar nisso quando vivi uma situação exatamente igual à um capítulo de uma história que ele escreveu, inclusive com as mesmas pessoas. Ou, pelo menos, pessoas com os mesmos nomes que os personagens. A diferença era que na história não existia uma Bianca. Talvez seja isso. Talvez eu não exista. Talvez eu seja uma personagem de algum livro e o que vivi foi exatamente o contrário: a situação aconteceu e depois alguém escreveu a minha história, adicionando a personagem Bianca como narradora. Não consigo explicar. Mas foi assim:
Na virada de 2002 para 2003 eu fui com a Mariana para Maresias, uma cidade do litoral de São Paulo. Ela acabou conhecendo um garoto chamado Kadu. Só isso já foi uma coincidência. Li duas histórias escritas por Devon: A Verdade do Tempo e Arcanos. Em Arcanos, o personagem principal chama-se Carlos Eduardo, mas todo mundo o conhece como Kadu. Mas a grande coincidência está em A Verdade do Tempo. Como eu disse, passei a virada em maresias e a Mariana conheceu um garoto chamado Kadu. Eles se entenderam, o que me deixou com ciúmes, lógico, mas fazer o que... Tínhamos chegado a um acordo: namoramos, sim, foi bom, mas foi uma coisa da idade. É até comum garotas namorarem aos 15, 16 anos... Mas achamos melhor terminar nossa relação, continuarmos amigas e seguir em frente. Ela se convenceu de que era heterossexual. Eu tinha minhas dúvidas quanto a minha opção sexual. Mas então, eles se conheceram, se entenderam e chegaram a se beijar. Tudo isso na parte da manhã. À tarde Kadu foi para Toque Toque Pequeno, uma cidade próxima à Maresias. Era madrugada, eu estava com Mariana no quarto quando Kadu apareceu, todo ferido. Quando ele começou a nos contar o que havia acontecido, fiquei horrorizada: ele disse que havia sido agredido pelos jovens de Toque Toque pequeno, exatamente igual à Verdade do Tempo. E disse que voltaria no dia seguinte, que seu amigo, Fábulas, um negro envolvido com o crime, ia emprestar um revólver e ele iria se vigar do garoto que havia causado tudo aquilo. Perguntei se o nome do garoto era Rafael, já temendo sua resposta. Quando ele perguntou “Como sabe disso? Você o conhece?” eu nem soube o que responder. Apenas disse que Rafael era um nome comum. Acontece que Rafael era o protagonista da história escrita por Devon. Eu sabia o que aconteceria no dia seguinte, como de fato, aconteceu, mas preferi não dizer nada. Não queria que ele pensasse que eu era louca caso eu tentasse explicar como eu sabia. No dia seguinte, eu, Mariana e Kadu fomos para Toque Toque Pequeno. Ele tentou matar Rafael e aconteceu exatamente igual a história: em um momento de distração, Rafael o surpreendeu e acabou subjugando-o. Ao viver uma situação que eu já havia lido em um blog de um desconhecido, fiquei em choque. Esse tipo de coincidência não existe. Fiquei pensando sobre isso por mais de um ano e até hoje, de vez em quando, eu tento entender como isso é possível.
Mas só lembrei disso porque me dei conta de que vou morrer sem nunca ter trocado nem uma palavra sequer com o tal Devon. Gostaria de ter conhecido-o, saber seu nome, saber quantos anos tem, o que gosta de fazer, ouvir, assistir, ler. De uma forma bem peculiar, ele foi muito importante para mim. Me ajudou a entender algumas coisas sobre minha vida. Irônico o fato de que ele nunca saberá da minha existência. Nunca tive coragem de comentar um de deus posts ou coisa assim. E olha que eu tenho muitas perguntas para fazer. Uma delas é sobre o seguinte texto:
“Ferida, após tantas batalhas, ela chega à praia.
Suas pernas fraquejam e os joelhos vão ao chão, batendo contra a areia branca.
Seu elmo, o mesmo elmo que a protegera tantas vezes, agora pesa e a impede de prosseguir. Ela então o retira e sente a brisa do mar bater em seu rosto. O frescor restaura sua alma puída e concede mais um sopro de vida.
Com a esperança renovada, ela se levanta.
No mar, uma serpente marinha aterroriza as naus que se aventuram por aquelas águas.
Um dragão alado corta o céu, soprando, com extremo ódio, uma labareda de fogo maldito que reduz tudo que é belo em cinzas.
Mesmo que morra, ela precisa enfrentar os monstros. Só assim terá paz. Só assim será feliz.
Ela deixa o seu elmo e anda em direção ao mar e ao céu.
Essa pode ser sua última chance.”
Esse texto é acompanhado por um desenho tosco feito no computador. Sei que deve haver uma metáfora por trás disso. Sei que é por conta de uma garota por quem ele estava apaixonado. Mas nunca entendi. Gostaria que ele me explicasse.
Mas agora é tarde. Acabei de tentar abrir os olhos. Não consegui. Eu vou morrer e jamais entenderei a metáfora do texto. Jamais conhecerei o autor. Jamais vou conseguir dizer que, de uma forma maluca, como tudo em minha vida, eu o amo.
Por Devon, em 8:57 AM |
Capítulo 21
— Acho o maior barato.
Dei um pulo, tamanho o susto. Fazia meses que eu não ouvia aquela voz. E de repente, bem ali, ao meu ouvido.
— O... o quê?
— Você e a Mariana, namorando.
— Quem disse que estamos namorando?
— É o que falam por aí.
— E você acredita? Falam por aí que você é gay.
— Pode ser.
— E você é? — “pelamordideusnão” pensei.
— Não. — “ufa!”
— E você, é lésbica?
— Não.
— Foi o que imaginei.
— Então por que acreditou que eu estava namorando a Mariana?
— O que tem a ver uma coisa com a outra?
— Ué, menina que namora menina é lésbica, certo?
— Não exatamente. Você pode ser bi. Ou pode apenas estar curtindo. Acho esse lance de ficar definindo a opção sexual de cada um uma babaquice.
Alexander havia se sentado na carteira atrás da minha. O professora escrevia algo sobre ótica na lousa. Pronto, com certeza a aula estava perdida. Até gostava de física, mas a conversa estava muito mais interessante.
— E você, curte meninos? — indaguei, tentando tirar o foco da conversa de cima de mim.
— Acho que não, não sei... Nunca me interessei, mas se um dia isso acontecer... Por que não?
— Ah...
— Bom, isso responde a minha pergunta.
— Como assim?
— Você acabou de confessar que namora a Mariana. Tudo bem eu não sou desses tipos que ficam julgando as pessoas. Acho que devemos agir de acordo com o que somos. Se você é bissexual, ame outras garotas. Se você é um psicopata, mate. E por aê vai.
Desisti. Não havia sentido em tentar esconder.
— OK, eu e a Mariana estamos namorando.
— Acho o maior barato!
Por Devon, em 8:56 AM |
Capítulo 20
Eu estava bem arrumadinha para a ocasião. Vestido azul, sóbrio, salto alto e uma bolsa elegante. Mariana, minha amiga, vestia uma uma blusinha branca e uma saia jeans. Ela estava igualmente atraente. Enquanto aguardávamos na fila para comprar os ingressos para a próxima sessão, um grupo de garotos olhavam para nós e conversavam entre eles, com risinhos nos rostos.
— Talvez vire algo, Bi.
— Não sei. Estou realmente a fim de ver esse filme.
— Meu, acorda... Já faz mais de um ano que você está apaixonada pelo Alexander e até agora, o quê? Três palavras?
— Foram onze diálogos.
— Você contou?
— Por acaso.
— Você é doida. — “você é doida”. Uma frase que eu escuto desde sempre. Às vezes varia entre “louca” ou “maluca”. Será que um gay se sente ofendido quando é chamado de gay? Eu deveria me ofender? Não, nesse caso sabia que era apenas uma expressão.
Mariana jogou os cabelos para trás, fazendo charminho. Os garotos perceberam. É como o início de uma dança de acasalamento. Somos tão parecidos com os animais. É de se espantar que ainda existam pessoas que não acreditam em teoria da evolução. A menos que Deus não possua nenhuma criatividade e tenha criado todas as espécies com características semelhantes. Os machos entenderam o sinal e iniciaram a corte.
— E aê princesas, indo no cinema? — disse um rapazote extremamente bonito. É a lei do equilíbrio: belo, porém burro. Pensei em dizer “Não, estamos na fila pra comprar linguiça. E não é 'indo no cinema', é 'indo AO cinema'.” Mas o que eu disse foi:
— Pra você ver...
Não estava interessada nos garotos por duas razões: 1ª, era fã do Tarantino e estava ansiosa para assistir Kill Bill; 2ª, por mais que eu me esforçasse, não conseguia tirar Alexander da minha cabeça. “Pra você ver...” sintetizava bem tudo o que eu queria dizer. Mas eles eram brasileiros e não desistiam nunca. Além do quê, minha amiga estava interessada. O problema era que eles eram quatro e nós, duas.
Durante os quatro minutos que levamos pra nós chegarmos ao guichê, eles falaram um monte de baboseiras. Desliguei. Levei minha mente para outro lugar. Eu era boa nisso. Mariana estava que era só sorrisos.
— E aê, vocês vão assisti ao filme ou não? — perguntei.
— Do que se trata?
— O fulgor vibrante da vingança.
— Um filme de luta e tal. — explicou Mariana.
— Quanto?
Pobres. Também, naquele cinema só poderiam ser pobres.
— Quinze a inteira, sete e cinquenta a meia. — preferi não arriscar e fazer a conta por eles.
— Pô, a gente ia no Mac. Vamos aê?
Mariana olhou pra mim, implorando. Ela, decididamente não estava afim de ir assistir ao filme. Só estava ali porque era sexta feira e ela não tinha nada muito melhor pra fazer.
— Sem chance. — disse, irredutível. — Eu realmente quero ir ver esse filme.
— E você, princesa?
Mariana me olhou, com um olhar de cachorro pidão.
— Quer ir, vai... Eu vou ver o filme.
— Sinto muito, amores, mas vou ficar com a minha amiga.
— É isso, então... A gente se vê por aê.
— A gente se vê.
Eles foram embora e ela me olhou com uma cara de decepção.
— Que é isso, Bi? Mor gatinhos!
— Não estou interessada. Se eles fossem ver o filme conosco, quem sabe depois da sessão...
— Agora já era... Vamos?
Entramos na sala escura e procuramos um lugar agradável. Escolhemos duas poltronas no meio da sala.
A Noiva já havia matado a Vernita Green e eu estava adorando o filme. Olhei para o lado e Mariana parecia entediada. Sabia que ela não ia gostar. Era o tipo de garota que assistia comédia romântica.
No escuro do cinema, com o brilho da tela refletindo em seu rosto, reparei em sua beleza.
Mariana aproximou seu rosto de mim e disse baixinho:
— Você me deve uma.
— Por quê?
— Porque não te deixei na mão. Poderia estar agora ficando com um daqueles meninos. Esse filme é chato e hoje eu estou a fim de beijar.
Seu perfume chegou ao meu cérebro e quando dei por mim, meus lábios se encostaram no dela. Mariana recuou, assusta. Olhou para mim, com uma cara confusa. Eu pedi desculpa, mas nenhum som saiu. “Por que eu fiz isso?”.
Nos sentamos eretas e fixamos nossas visões na tela, em total silêncio. Mas o estrago estava feito. Não consegui mais me concentrar no filme.
Após alguns minutos, que me pareceram uma eternidade, senti suas mãos quentes sobre a minha. Olhei para ela, surpresa. Ela balançou a cabeça.
Na semana que vem eu venho assistir esse filme novamente.
Por Devon, em 8:56 AM |
Capítulo 19
Não, mil vezes não. Confesso que meu maior medo ao cometer suicídio era exatamente reviver os fatos da minha vida e ser obrigada a relembrar esse episódio com o meu primo. É a lembrança que mais me perturba. Mais até do que o estupro na construção. Levei quase um mês para conseguir, mas no fim eu enterrei o ocorrido bem lá no fundo do meu inconsciente e coloquei uma placa na porta da cela: “AVISO! Lembrança perturbadora. Risco de insanidade. Mantenha distância.”
Mas essa sou eu. Sou um ser humano que simplesmente não consegue, ou nem sequer tenta, controlar seus instintos primitivos. Sim, esses são os instintos do homem: sexo e violência.
Negar seus instintos é a lucidez. Agir de acordo com a natureza humana é insanidade. Por isso sou taxada como louca. A culpa é da maldita sociedade. Ela cria conceitos de certo e errado. Eu queria, meu primo queria. Li em algum lugar que na pré-história, tão logo a libido aflorava no homem, ele já iniciava sua vida sexual, seja lá com quem fosse. Mais velho ou mais novo. Instintos primitivos. Mas a sociedade criou tabus. A maldita sociedade me fez sofrer horrores por ter simplesmente cedido a um instinto. Fez com que eu me sentisse uma pedófila nojenta, um monstro, uma corruptora de menores. Se alguém ficasse sabendo o que aconteceu aquela noite eu seria presa, minha tinha me daria uma surra, minha mãe morreria de desgosto. Ninguém consideraria o prazer que meu primo sentiu, ninguém levaria em consideração o fato de que ele também queria. Eu seria a errada, eu seria a culpada, seria a vilã. Não tento me justificar. Apenas fico indignada com os valores da sociedade. Mas agora não tem mais jeito. A sociedade diz: “O que você fez foi errado, menina, muito errado!!!” e eu acredito. E sofro. Não digo que foi por isso que cometi suicídio, mas quando sai da casa dele e pensei em tudo que fiz, em tudo que sou, essa lembrança gritou lá do fundo do meu inconsciente. Foi rápido, mas eu ouvi. E isso, definitivamente, me ajudou a ter certeza de que a melhor saída era a morte.
Às vezes fico pensando... não me relaciono bem com as pessoas. Minha vida deveria ser bem calma, bem tranquila. Eu deveria nascer, crescer, envelhecer e morrer sem fortes emoções. Mas não foi isso que aconteceu. Cristiane F. ou Melissa Panarello tiveram uma vida extremamente morna se comparada à minha. Já relembrei muita coisa bizarra, mas sei que ainda existe muitos lugares obscuros da minha mente a serem revisitados.
Por Devon, em 9:45 AM |
Capítulo 18
— Seu primo vai dormir no seu quarto.
— Ah, mãe...
— Que é isso, Bianca, deixa de ser egoísta!
— Mas minhas coisas...
— Então coloca o video game na sala.
— Eu não. É sábado, quero jogar.
— Ai, credo, menina, você já tem dezenove anos. Não está velha demais pra isso?
— Nem falo nada.
— Por favor, filha? Sua tia quase nunca vem pra cá. Seja gentil, vai?
— Tsc. Tá bom, vai...
— Obrigado!
João Vitor tinha só doze anos mas até que era uma criança bacana. Eu só me incomodava com a privacidade perdida. Não que eu ficasse andando pelada pelo quarto, mas eu gostava de apagar a luz, ligar o som e ficar pensando nas coisas. Porém, minha mãe tinha razão. Cida era sua única irmã e morava na capital. Raramente nos visitava, mas minha mãe estava se sentindo muito só. Não custava nada ser gentil com minha tia ou com meu primo.
Passamos a noite jogando video game e conversando sobre coisas como escola e faculdade, namoros e namoricos, filmes, desenhos, essas coisas. Sim, ele era de fato, uma criança bacana.
Arrumei o colchão para ele dormir, deitei na minha cama e me cobri com o lençol. Tirei minha calça do pijama, e joguei no chão. A luz estava apagada e a janela fechada, mas a lua brilhava tão forte no céu que o quarto estava relativamente claro. Percebi que ele abriu os olhos quando ouviu o barulho da calça sendo retirada e ficou me encarando. Balancei a cabeça e tirei uma idéia maluca da cabeça. Me virei para o lado e tentei dormir. Mas tinha certeza que ele continuava a me olhar. “Normal na idade dele... A sexualidade começa a aflorar. Um dos estágios do desenvolvimento. Ainda ontem a professora estava comentado sobre isso. Normal.”
Mas não consegui tirar a idéia da minha mente. Comecei a imaginar ele divisando minhas curvas no escuro, embaixo do lençol. Sabia que ele me desejava. Poderia ser verdade? Não, eu não poderia estar ficando excitada por conta de um garotinho. Ou poderia? “Meu Deus, ele é só uma criança, sua devassa. Ele é seu primo, sua família.” ”Prima são para essas coisas!”
“Prima são para essas coisas!”. Esse pensamento ficou me rodeando por alguns minutos. Eu estava imóvel e ele provavelmente pensou que eu já havia adormecido. Então comecei a ouvir um ruído que eu já conhecia. “Era o que me faltava.”
“Prima é para essas coisas.” Me virei para um lado e depois para o outro, de forma a tirar o lençol de cima de mim e deixar minha bunda descoberta. Ouvi sua respiração ficando mais ofegante. Achei engraçada aquela situação. Excitante e engraçada. Tornei a me virar e o ruído e a respiração cessaram. Com um sorriso no rosto, abri os olhos. João Vitor fingia que dormia.
Me levantei, tirei minha camisola e fui em direção a ele. Quando sentei no colchão, ele abriu os olhos assustado.
— Shhhh... Fique calmo. — eu disse.
Comecei a passar a mão por suas coxas e parei no seu pequeno membro entumecido. Retirei o cobertor que o cobria e abaixei suas calças. Tirei minha calcinha e sentei em cima dele. Foi bem rápido. Tanto ele quanto eu. Comigo não foi uma reação aos estímulos físicos e sim a situação extremamente doentia que me levou ao orgasmo. Ao sentir aquele líquido ralo dentro de mim, dei um beijo em sua testa, me levantei e fui deitar em minha cama.
Provavelmente ele contará essa experiência pelo resto de sua vida. Seus amigos sentirão inveja. Ele vai se tornar popular em sua turminha.
Não consegui dormir porque a verdade era uma só: eu violentara uma criança.
“Prima é para essas coisas, seu monstro!”
Por Devon, em 9:44 AM |
Capítulo 17
— O que você vê?
— Uma magnólia.
— E agora?
— Nuvens.
— Interessante. E essa aqui?
— Uma mancha preta de tinta? Brincadeira, uma gaivota.
— Bianca, isso é sério. Você realmente está vendo essas coisas?
— Olha doutora, se ficar mostrando manchas de tinta para o paciente vai determinar se ele é louco ou não, então eu acho que até eu posso ser psicóloga.
— Minha filha, isso é sério.
— Minha mãe que está pagando por essa palhaçada, então, o mínimo que você pode fazer é deixar eu curtir com sua cara. Isso, escreve aí em sua prancheta. O quê? “Reação violenta”? “Tentativa de fuga da realidade através do escárnio?” Coloca aí que sofro de uma mistura bizarra de complexo de Electra e necrofilia. Não é isso que vocês fazem? Atribuem todos os problemas psicológicos a desejos sexuais latentes pelos pais?
— Você se acha muito inteligente, não? Pois saiba que psicologia é muito mais do que isso. Vá ler Niche, Freud e outros estudiosos da psiquê humana antes de ficar falando besteiras.
— Olha, talvez eu faça mesmo isso. Talvez eu seja uma profissional melhor do que você. E você, que se diz a esclarecida, já perdeu o controle? Que resposta atravessada foi essa que você me deu? Sou sua paciente, eu que estou pagando, lembra? Vá ler Turma da Mônica. Vá se tratar antes de tentar tratar os outros. Vá se fuder! Isso, vai fuder pra relaxar, que deve fazer tempo que você não faz isso.
— Agora chega, não preciso do seu dinheiro. Saia já da minha sala e não volte mais aqui.
— “Oh, eu sou uma doutora muito malvada, me castigue, oh yeah, oh God!”
— SAIA! JÁ!
Por Devon, em 9:44 AM |
Capítulo 16
É claro que eu acabaria cometendo o suicídio. Eu não era ninguém. Levava uma vida vazia. Odiava a raça humana. Todas as noites olhava para o céu e pensava: “Abduzam-me, por favor.”
Eu era uma pessoa invisível e mentalmente instável. Não tinha amigos. Mas, por incrível que pareça, tive uma vida digna de personagem de um filme de Lars Von Trier. Só me faltou ser violentada na infância. Se meu pai não tivesse morrido quando eu ainda tinha quatro anos, é bem provável que isso teria acontecido. O Mauro nunca tocou em mim. Talvez pensasse que loucura é genético e como minha mãe era aparentemente lúcida, deveria ser, no fundo, uma psicopata ou algo assim. Acho que ele tinha medo de fazer algo comigo e ser esquartejado pela minha mãe enquanto dormia. Não descarto essa hipótese. Mas não por mim e sim pelo ciúmes doentio que ela sentia dele. Talvez até eu acabasse esquartejada. Uma manchete e tanto. Mas eu sabia que ele era um porco. Pouco antes dele ir embora eu passei na frente do banheiro e escutei uns sons estranhos. Já disse que sou extremamente curiosa. Olhei pelo buraco da fechadura e fiquei enjoada com o que vi. O canalha havia retirado uma das minhas calcinhas do sexto de roupa suja e esfregava-a em sua fuça enquanto se masturbava. Sua cara se contorcia em uma careta medonha enquanto balbuciava “Ai, Bianquinha, ai Bianquinha.” Tive vontade de colocar a porta abaixo e abrir um segundo sorriso em seu pescoço. Claro que não fiz nada disso. Nem contei para minha mãe, é óbvio. Mas desse dia em diante, sempre que olhava para aquela cara nojenta, tinha vontade de vomitar. Ainda bem que o chauvinista foi embora pouco depois. Eu ainda ia acabar matando-o.
Por Devon, em 9:43 AM |
Capítulo 15
— Bianca Martins de Almeida.
Todos aplaudiram. Eu me levantei e fui receber o canudo. Pose para a foto, que provavelmente custará uma fortuna. Era a formatura da oitava série. Metade da minha vida escolar havia terminado. Faltava ainda o ensino médio, a faculdade, provavelmente de veterinária, e uma pós-graduação qualquer.
Sua mãe estava sentada na platéia. Ela sorria e chorava de felicidade. Será que ela estava satisfeita por sua querida filhinha não ter se matado ou internada em um hospício? Calma mãe, ainda haverá muitos anos de preocupação pela frente. O pior ainda está por vir. Minha adolescência começa agora.
A minha turma havia marcado uma festinha em uma pizzaria. Em casa, meu Playstation me aguardava.
— Qual é, Bianca, você nunca mais vai ver seus amigos. Deixe de ser anti-social e vai na festinha.
Eu tinha quatorze anos mas já conseguia ler nas entrelinhas: “Por favor, eu e o Mauro precisamos de privacidade para transar!”
Fui.
— Eu adoro pizza. E você? — Ricardo era um garoto simpático que sempre estava rodeado de amigos.
Dei de ombros. Esse foi o único diálogo que tive a noite inteira. Em casa, meu Playstation me aguardava.
Por Devon, em 9:43 AM |
Capítulo 14
Ele tampou a minha boca com sua mão suja e fedendo a nicotina. Seus braços eram fortes. Fui facilmente subjugada. Ele acertou uma joelhada na parte interna da minha coxa e eu perdi o equilíbrio. Dessa vez não senti prazer. Estava horrorizada demais para isso. Eu sabia que deveria ter confiado em meus instintos. Deveria ter atravessado a rua e entrado no bar que ficou metros atrás. Ele me puxou em direção a uma construção, deserta naquele momento. Ele socou minhas costelas. Eu tentei gritar, mas sua mão abafou o som. Sabia que não é meu dinheiro que ele queria. Lágrimas começaram a verter dos meus olhos como duas cachoeiras. Ele levantou a minha saia. Odeio saias. Maldita hora que fui querer ficar bonita para o meu namorado. Puxou minha calcinha até os joelhos e senti seu dedo áspero me penetrando. Doeu. Não senti prazer nenhum. Puderá. Estava mais seca que o deserto do Saara. Ele me abraçou por trás e começou a me forçar para baixo. Eu tentei resistir mas acabei indo ao chão. Meus joelhos bateram no concreto e começaram a sangrar. Ele deitou-se por cima, eu de bruços. Com suas pernas ele abriu as minhas. Escutei o barulho do velcro. Então a dor. Uma, duas, três estocadas. O movimento continuou por alguns minutos. Então seu corpo estremeceu. Seu cotovelo acertou minha nuca e prensou minha face contra o chão. Perdi os sentidos.
Eu vou voltar para casa, tentar evitar que minha mãe veja meu estado, entrar na banheira e tomar um banho de pelo menos duas horas. Esfregarei meu corpo até deixar a pele em carne viva. No próximo final de semana meu namorado tentará fazer amor comigo. Eu vou estar traumatizada demais para isso. Ele perguntará o motivo e eu terei que inventar uma mentira. Ele não poderá saber. Ninguém jamais poderá saber como perdi minha virgindade.
Por Devon, em 9:43 AM |
Capítulo 13
Se minhas lembranças da vida no segundos antes de morrer fossem transferidas para um livro ou um filme, a palavra clichê seria exaustivamente empregada. Essa sou eu: um clichê ambulante.
Sou uma mistura de todos os assuntos tratados no cinema e na literatura. Loucura, pedofilia, estupro, violência, sexo, amor e tantos outros assuntos polêmicos. Será ques ou assim porque essas coisas aconteceram comigo ou essas coisas aconteceram comigo porque sou assim? É o meio que transforma o indivíduo ou o indivíduo transforma o meio em que atua? A morte de meu pai e o aparecimento da Lucy foi o início da minha loucura ou eu já era louca antes disso? Uma criança normal teria mutilado seu cachorrinho como fiz com o Tóbi? Seria genético? Nasci assim? Ou minha incapacidade de me relacionar com outras pessoas foi degenerando minha mente aos poucos? Mas eu cresci frequentando psicólogos e psiquiatras. Na escola meus amigos e meus professores me chamavam de maluca. Minha mãe sempre respondia que não, que eu era normal. Dizia que eu superaria as dificuldades e poderia levar uma vida como qualquer outra criança. Mas eu sabia que ela não acreditava no que ela mesmo dizia. Estava sempre me vigiando, raramente me deixava sozinha em casa. Vai ver ela pensava que na rua eu não poderia ou não teria coragem de me matar.
Mas é sempre assim, não? O doido ou é assassino ou suicida. Por pensar que eu era covarde, ela provavelmente presumiu que eu seria a segunda alternativa. Eu, na posição dela, temeria pela minha própria vida.
Quando a apresentei meu primeiro namorado, quando algumas meninas começaram a ligar em casa para me chamar para sair, ela achou que estava tudo bem, que a minha “fase difícil” (como ela costumava chamar... Minha mãe e seus eufemismos irritantes) havia passado. Mal sabia ela que eu estava pior do que nunca.
Por Devon, em 3:52 PM |
Capítulo 12
Era o último dia de aula do primeiro ano do ensino médio. Eu havia sido aprovada com louvor. Não que eu fosse muito inteligente, mas o ensino da meu colégio era realmente fraco. Eu não tinha nenhuma dificuldade com as matérias. Até mesmo em educação física eu fechei com nota máxima.
Após olhar a lista de aprovados, olhei para o pátio. Todos estavam planejando festas e coisas assim. Eu planejava dar uma passada na locadora e gastar minha mesada em filmes.
Sem ter alguém para me despedir, virei as costas e fui embora.
Na esquina, encostado no poste, fumando, com maior pinta de James Dean, Alexander me encarou. Sustentei o olhar. Ele tragou seu cigarro e me deu um sorriso enigmático, maroto. Corei e virei o rosto. Segui meu caminho de cabeça baixa. O que será que significava aquilo? Gostava de mim? Pelo menos sabia que eu existia.
Seven, Magnólia, Pulp Fiction, Coração Valente e Cidade dos Anjos. Esse último para me lembrar que, apesar de tudo, sou uma garota.
Por Devon, em 3:52 PM |
Capítulo 11
Muitas crianças possuem um amigo imaginário. Mas quando esse amigo a acompanha até os dezoito anos, imaginação passa a ter outro nome e se torna um caso patológico.
Seu nome era Lucy. Aquela Lucy que vivia no céu com diamantes.
Eu era muito nova quando meu pai morreu, mas uma coisa eu nunca esqueci: os Beatles.
Meu pai era o que se podia chamar de beatlemaníaco. Tinha todos os LP's, o escritório era decorado com fotos da banda, ele tinha uma colação de miniaturas de rezina dos quatro integrantes e costumava traduzir as letras das músicas para mim. A que eu mais gostava era Lucy In The Sky With Diamonds. Achava fantástico a idéia de morar no céu e não ser nem anjo nem Deus. Lucy era formidável.
A primeira vez que eu a vi foi, óbvio, no enterro do meu pai. Estava sentada em um banco chorando e ela sentou ao meu lado. Era muito branca, usava um vestido rosa e os cabelos negros estavam presos em duas tranças.
— Não se preocupe Bianca, ele está indo para o céu. É um lugar muito bonito.
— Jura?
— Juro. — ela cruzou os dois indicadores em cruz e os beijou duas vezes.
— Como é lá no céu?
— É um belo jardim, muito cheio de flores e cachoeiras. Tem muitos bichinhos fofos e todo mundo é feliz. Além disso ele vai se encontrar com o John. Aposto como eles vão fazer uma música para você.
— E eu vou poder ouvir?
— Todo mundo vai. Vai demorar um pouco, mas um dia você vai escutar a sua música.
— Você quer ir dormir lá em casa hoje? Estou muito triste e a gente podia brincar até ficar com sono.
— Claro que quero. A partir de hoje vou estar sempre com você.
Por Devon, em 3:51 PM |
Capítulo 10
Beija Eu, da Marisa Monte tocava ao fundo. Ele veio por trás e começou a acariciar meus cabelos. Eu me virei e nossas bocas se encontraram. Havia mais do que desejo. Havia amor. Eu o amava e o amaria para o resto da minha vida.
Estava com medo. Não dele, mas estava com medo. Sempre me disseram que a primeira vez era doloroso. Eu estava contando com isso.
Me deitei em sua cama e ele deitou-se por cima. Seu olhar atravessava meus olhos e chegava em minha alma. Ele tirou minha blusa e eu tirei sua camiseta. Enquanto ele beijava meu pescoço eu arranhava suas costas.
Ele era virgem, assim como eu. Nos entregaríamos um ao outro. Seria nosso pacto. Forever . Essa palavra tinha sido exaustivamente escrita em meu diário, mesmo antes de começarmos a namorar. Eu sempre soube que ele seria o único. Seria a pessoa que estaria ao meu lado para sempre. Casamento. Filhos. Uma casinha em um lugar tranquilo.
Ele estava tendo dificuldades em abrir meu sutiã. Ajudei-o e meus seios ficaram expostos. Percebi o desejo em seus olhos. Me sentia a garota mais linda do mundo. Ele beijou-os desajeitadamente, mas com voracidade. Meu corpo estava em chamas. Abri o cinto e tirei minha calça. Ele fez o mesmo. Nossos sexos estavam separados por duas camadas de tecido extremamente finas. Senti sua ereção. Forçava minha virilha. Ele levantou seu corpo e com surpreendente habilidade colocou a mão dentro da minha calcinha. Eu já estava explodindo por conta da tensão sexual e não demorei muito pra chegar ao ápice. Então meu paladar detectou um gosto ferroso.
Ele se levantou, cobrindo a anca direita com a mão. No seu rosto, uma expressão assustada.
— Que porra é essa? — ele perguntou. — Você é louca?
A princípio não entendi mas então senti um objeto estranho em minha boca. Virei para o lado e cuspi. Um pedaço de carne ensaguentado caiu no chão. Eu o havia mordido com tanta força que cheguei literalmente a tirar um pedaço.
— Me desculpe! — implorei. — Estava tão bom que não consegui me controlar.
Ele tentou se conter mas acabou rindo. Um riso presunçoso. O orgulho masculino é algo engraçado.
— Cuidado com essas presas, Lestat!
— Onde você vai?
— Onde você acha? Fazer um curativo.
Por Devon, em 3:51 PM |
Capítulo 09
— Você é uma vadia, isso que você é!
Minha face ainda estava quente por conta do tapa. Se ele não terminasse comigo naquele momento, seria eu quem botarei um fim nesse relacionamento. Já tem um tempo que não existe amor. Não de minha parte.
Enquanto ele choramingava eu pensava na noite anterior. Senti sensações que nunca pensei ser capaz de sentir.
Seu membro em repouso era ínfimo, ridículo. Como pude um dia estar apaixonada por esse... garoto?
Enrolada no lençol, sem dizer uma palavra sequer, me levantei da cama e fui pegar minhas roupas na cadeira. Vesti minha calcinha, meu sutiã e minha saia. Ele se levantou, vestiu sua cueca e abriu a gaveta do criado mudo e pegou um maço de cigarro e começou a fumar. Ele sabia que eu detestava vê-lo fumando, então ele costumava fumar as escondidas. Talvez ele tenha feito isso para me irritar. Mas naquele momento eu simplesmente não me importava.
Aquela pessoa, deitada na cama, tragando um cigarro, já não representava mais nada para mim. Meu coração batia por outro. Eu até tentei, mas não deu.
Quando, após duas tentativas, eu não consegui chegar ao orgasmo, tudo ficou claro: não era mais ele que eu queria. Decidi ser honesta e contar a verdade. Minha recompensa foi um tapa no rosto e palavrões gratuitos. OK, talvez não tão gratuitos assim, mas nada justifica.
Vesti meu top e decidi falar:
— Acabou. Vou embora. Não gosto mais de você. Não me procure.
Ele pulou da cama e puxou meu braço.
— Não pense que será assim tão fácil. Você não sabe do que sou capaz! — disse.
Fiquei irritada com aquela atitude e decidi reagir. Apertei-lhe os testículo e ele rugiu de dor.
— Não, meu amigo, VOCÊ que não sabe do que sou capaz. Se eu disse que acabou, que não quero que me procure, é melhor você fazer o que digo. Se você se aproximar de mim novamente, eu chamo a polícia, conto uma história, enfim, te deixo em maus lençóis. Estamos entendidos? — apertei com mais força. — ESTAMOS ENTENDIDOS?
Ele balançou a cabeça, debilmente, vertendo lágrimas suplicantes. Cara, deveria estar doendo de verdade. Deu um último puxão. Ele deu um último urro. Empurrei-o na cama. Ele caiu, se contorcendo. Peguei minha bolsa e antes de sair correndo, disse:
— Pedirei pra alguem vir buscar minhas coisas. Espero que elas estejam do jeito que as deixei.
Valendo-me dos minutos que ele gastaria para se recuperar, segui com passos largos em direção a rua e entrei no primeiro ônibus que passou.
Ele sempre foi uma pessoa tranquila, mas um homem traído e abandonado perde a razão e ele poderia fazer alguma besteira.
Fiquei sentada no ônibus, olhando pela janela e pensando no que fiz e avaliando minhas opções.
Que situação.
Por Devon, em 3:51 PM |
Capítulo 08
Minha mente é tão confusa que nem na hora da morte, no momento de recapitular os momentos importantes da minha vida, ela consegue seguir uma ordem.
Saltam imagens aleatórias da infância, da adolescência e dos últimos anos... Sem ordem, apenas caos.
Mas, pra ser sincera, eu não me importo.
Por Devon, em 3:50 PM |
Capítulo 07
A porta do ônibus fretado abre e eu entro. Severino, o motorista, acena com a cabeça. Eu retribuo o aceno. Parada no início do corredor eu observo todos os meus companheiros de viagem. A maldita cidade onde moro não possui faculdade e portanto, eu tenho que gastar três horas do meu dia na companhia dos mais desagradáveis tipos. A garota que subiu atrás de mim me cutuca para passar.
— Ei, vai logo! — sua voz é esganiçada e irritante. Eu a odeio. Odeio muitas coisas nesse mundo. Eu me sento na primeira poltrona, abrindo passagem para a vadia. Abro minha mochila e vejo seu brilho reluzir.
Nos filmes americanos, sempre que algum maluco decide cometer uma chacina, é logo uma espingarda ou coisa do tipo. Não eu, não aqui, no Brasil.
Uma vez na serra, eu a retiro da mochila e escondo-a as costas.
— Boa noite. — eu falo alto, para todos. Uns dois ou três me respondem. Eu já esperava por isso. Começo a recitar Fernando Pessoa. A “galera” do fundão começa a me vaiar e me mandam calar a boca. Era o motivo que eu estava esperando.
Aponto minha Magnum cromada para a cabeça do Severino e o mando parar o ônibus. Todos mundo tenta se manter calmo mas eu vejo o terror em seus olhos. E eu gosto.
— Se alguém se levantar, eu atiro! Juro por Deus que atiro. Severino, vá para o fundo e se tranque no banheiro. Não saia de lá até eu mandar.
O nordestino assim o faz, calado, tremendo, obediente. O poder é inebriante.
Então eu olho para cada rosto assustado. Algumas pessoas choramingam. Deixa choramingar. Foram três semestres de invisibilidade, de indiferença. Agora eu era importante. Todas as atenções estavam voltadas a mim e não a vadia que ficava se esfregando nos garotos e falando de sexo. Vadia vulgar.
Então olho para a menina sentada na primeira poltrona, no corredor esquerdo. Gorda. Todo dia entrava no ônibus comendo alguma porcaria fedida. Nunca me fez nada. Exatamente, nada. Deve ter rido da minha cara quando abriram a porta enquanto eu estava urinando no banheiro. Foi engraçado, não foi? A primeira bala acerta a sua imensa barriga.
Então o ônibus entra em pânico. Eles sabem que não vai escapar ninguém. Não havia exigências, não havia outro interesse senão executar todos que estavam ali. Era mesmo de se entrar em pânico.
Com outro tiro na cabeça eu acabo com a agonia da gorducha.
Próximo: o estudante de direito que se acha o cara mais sagaz do mundo. Estou fazendo um favor a raça humana. Aponto a pistola para sua boca e puxo o gatilho. Um pedaço de dente passa perto da minha orelha.
Infelizmente eu escolhi um mal dia. Não haviam muitos estudantes do veículo. Mas era o suficiente para saciar minha sede por vingança. Mesmo sendo atéia, justifico-me nos pecados capitais. Gula e avareza. Eu sou a ira. Sobrará-me uma bala no final daquele pente infinito.
E lá se vai a preguiça. Um filhinho de papai que quase nunca vai para a faculdade. Não dá o devido valor. Não sabe como eu tenho que ralar para pagar meus estudos. Que azar, hein, xará? Escolheu um péssimo dia para assistir aula.
Ahhhh, a hipocrisia. A crente. Ou a puta. Hipocrisia não é pecado. Valho-me da luxúria. Cheia de moral, cheia de dizer que é serva do Senhor, que homem que não é da igreja não serve. Ela deve mesmo acreditar nisso, porque além do namoradinho crente, ela tem um caso com o guitarrista da banda podre da igreja que ela frequenta. Sendo invisível, consigo escutar coisas que outras pessoas não escutam. Certa vez me sentei ao atrás dela e a ouvi confessar sua promiscuidade para a amiga, que morreu de inveja. Inveja?... Confere, pecado capital. Sinto-me sádica.
— Então o homossexualismo não é correto? Não é aceito perante os olhos de Deus? Pois eu sou Deus! E digo: 'beijais a boca de tua irmã, pois é nela que encontrará um fim rápido!”
Claro que elas não entendem. E esperar demais, mesmo para o nível universitário.
— Eu mandei beijar a porra da boca da sua amiga!
Com lágrima nos olhos, elas se beijam.
— Isso, agora coloquem a mão uma dentro da calcinha da outra e se toquem. — garanto que todos os homens do ônibus, se não soubessem que em breve eu estourarei suas cabeças, apreciariam o espetáculo. Chauvinistas. Enquanto elas se beijam e se tocam, eu disparo. Um tiro em cada cabeça.
Ao menos fui honesta e cumpri com minha promessa. Morreram instantaneamente, sem muita dor, creio eu. Seria isso justiça poética? Esbaldo-me com esse pensamento e começo a gargalhar histericamente. Então um garoto tenta se jogar pela janela. Eu acerto seis tiros. Uma pena. Não tinha nada muito contra ele. Talvez até o deixasse viver. Recado dado.
Seis já foram. Restam doze passageiros, sendo que três receberão tratamento especial!
É a vez do casalzinho sem sal. Se há pecado é a preguiça. Preguiça de procurar algo melhor, de estar acomodado com uma pessoa que não se ama. Não há amor entre eles. Morram. Não há o que se perder.
A estudante de direito. É a vaidade. Acredita ser melhor do que todos no ônibus. Acredita que é mais inteligente e mais interessante que a maioria das pessoas da cidade. Talvez seja. Não seria justo com o restante. Um tiro certeiro entre os olhos põe fim em seu reinado pretensioso.
Enfim chego em uma das pessoas que receberá tratamento especial. A vadia de voz esganiçada. Talvez para ela eu não fosse invisível. Mas ela me odiava e eu a odiava. Era feia e desesperada pra chamar a atenção dos garotos. Se vestia de forma vulgar e só falava em sexo. Era a vaidade, a luxúria, a inveja, a cobiça, era a gula e a ira. Era a preguiça. Ela era o pecado. A morte não a bastava. Teria que ser criativa.
— Ponha a cabeça para fora da janela!
— Bianca, pelo amor de Deus, eu... — ela sabia o meu nome? Fiquei relativamente surpresa. Mas ouvir meu nome em sua boca imunda só me deixou mais irritada.
— Vai, sua putinha, cabeça para fora da janela.
— Não! Você vai me matar de qualquer jeito!
Com uma, duas, três coronhadas eu a coloco inconsciente. Com outra coronhada coronhada quebro um pedaço do vidro da janela. Puxando-a pelos cabelos, coloco sua cabeça para fora da janela e fecho-a violentamente. Pena ela estar inconsciente. A cabeça cai no meio da rodovia com um som seco. Gritos, alguém vomita. Um show e tanto!
Chego na poltrona onde o estudante de letras está sentando. Um arrogantezinho metido a intelectual. Assim como a garota do direito, acha que é o melhor que há na nossa turminha feliz. Vaidade. Um tiro a queima roupa entre os olhos, para combinar com sua amiguinha.
E chegou a hora do segundo convidado especial. O filha da puta que abriu a porta do banheiro enquanto eu estava urinando, que me humilhou. É por aí que eu vou.
— Esse maldito tem que pagar pelo que fez a mim. — digo para os quatro homens que restaram no fundão. — Sei que vocês não ligam a mínima, mas essa brincadeira super divertida de vocês me fez chorar por uma semana seguida. Vocês se acham geniais e humilham as pessoas. Pessoas que vocês nem conhecem. Não sabem o que elas são capazes de fazer. Espero que tenham aprendido a lição. Mas acredito em segundas chances. Vocês vão currar esse gordo morfético. (ele tenha implorar ou algo assim, eu o mando calar a boca) Se fizerem o que mando, juro por Deus, eu deixo vocês saírem daqui com vida! Você não, Fernando, para você tenho outros planos.
É incrível como, diante da morte, ninguém é amigo de ninguém. Em meio a lágrimas e pedidos de desculpa, ele é rapidamente subjugado e violentamente currado.
Após o ato, não me contenho:
— Muito bem. Pena que sou atéia.
Antes que eles consigam entender o que eu quis dizer com isso, a pistola ruge nove vezes e todos caem sem vida. Muitos pecados. Eu sou o anjo Miguel.
Então me volto para o único sobrevivente: Fernando.
Desde a primeira vez que o vi sabia que estava perdidamente apaixonada por ele. Creio que ele jamais percebeu. Sou invisível para caras como ele.
— Abra a boca! Não me faça pedir duas vezes.
Não é de se espantar que eu tenha me apaixonado. Com dignidade de quem encara a morte de frente, ele me obedece. Coloco o cano da arma em sua boca. Uma lágrima escorre silenciosa do seu olho direito.
Com minha mão livre, agarro seu membro. Ele reage por instinto e eu quase disparo sem querer.
— Shhhh, relaxa, relaxa...
Abro a barguilha de sua calça e coloco seu instrumento para fora. Começo a acariciá-lo. Após alguns segundos ele está entumecido. Um garanhão, tenho que admitir. Conseguir uma ereção sob tamanha pressão psicológica. O ser humano é um bicho estranho.
Abaixo minha calça e minha calcinha e sento em seu colo.
A sensação dele me preenchendo é deliciosa. Começo a cavalgar ferozmente.
Não demora muito e sinto ele inundando meu ventre. Atinjo o orgasmo em seguida. Alucinada pelo prazer, perco o controle e disparo a arma. O sangue espirra em minha face. Eu nem pisco.
Espero meu corpo se comprazer com a sensação.
Pressiono a pistola contra meu queixo e puxo o gatilho.
Acordo assustada. Minha calcinha está encharcada. Com um sorriso de satisfação nos lábios, viro para o lado e volto a dormir.
Por Devon, em 3:50 PM |
Capítulo 06
Tinha dezesseis anos e na terceira semana de aula comecei a fazer uma coisa que as pessoas não devem fazer: pensar.
Honestamente, não sei como os filósofos conseguiram pensar em todas aquela coisas sem cometer suicídio.
Se você for parar pra pensar em como sua vida é curta e insignificante e como você a desperdiça, perceberá que no fim o esforço não vale a pena. Sei que a maioria acredita em vida após a morte, paraíso e essas besteiras, mas eu nunca consegui engolir muito nisso.
Dezesseis anos e nunca havia acontecido nada de extraordinário em minha vida. Eu ainda era virgem. Pensava muito em sexo. Não sei se as garotas da minha idade pensavam tanto quanto eu. Não sabia nada sobre as garotas da minha idade. Nem me interessava, para ser sincera.
Mas naquele dia, especificamente, não estava pensando em sexo. Por algum motivo idiota pensei em meu pai e senti saudades dele. Por algum motivo idiota comecei a chorar. Por algum motivo idiota a professora perguntou o que eu tinha. Por algum motivo uma garota respondeu “Liga não, professora, ela é louca assim mesmo.” Por algum motivo idiota eu me levantei, peguei meu caderno e acertei a cara dela.
Desde que o Mauro havia ido embora, o orçamento em casa tinha ficado apertado e eu cursava o ensino médio em uma escola pública. Essa garota, cujo meu caderno deixou o rosto vermelho, não era do tipo que leva uma cadernada numa boa e antes de nos separarem eu havia sido jogada no chão e batido a boca em uma cadeira. Um filete de sangue escorria dos meus lábios. A dor me dava prazer, Eu deveria ser mesmo louca.
Alexander se levantou e se aproximou.
— Você tem horas, por favor?
Que tipo de pessoa pergunta as horas para uma garota que está no chão, com a boca sangrando?
Acho que estou apaixonada.
Por Devon, em 3:49 PM |
Capítulo 05
Quando desci a escada, a mesa do café estava posta. Minha mãe assistia a TV na cozinha, enquanto comia torradas e bebia café com leite. Sentei-me e comi meu queijo quente com achocolatado. Na TV, o jornal da manhã anunciava um acidente que havia ocorrido em uma rodovia próxima da minha cidade.
Não sei como ela conseguia come enquanto fumava. Eu odiava o cheiro.
— Preparada para retornar à batalha, querida?
Ela sempre fazia a maldita pergunta. As férias de julho terminara e o segundo semestre do meu primeiro ano no ensino médio havia começado.
— Claro, mamãe!
Eu estava torcendo para que fossemos atropeladas por um caminhão a caminho da escola.
Contrariando minhas expectativas, cheguei ao colégio sã e salva. OK, salva.
“Isso é um espírito obsessor que encarnou nela, Sandra!” disse certa vez minha tia. Ainda lembro da palhaçada que foi minha sessão de descarrego.
Nos filmes americanos, os diferentes ou esquisitões ou os que não se encaixam são perseguidos pelos garotões e líderes de torcida. Na vida real isso não existe. Não no Brasil, pelo menos. Aqui somos simplesmente invisíveis. Não havia amiga, não havia meninos, não havia ninguém para eu reencontrar. Olhei meu horário e segui para a classe.
Ele estava sentado na última carteira do canto esquerdo da sala. Ainda não deveria ter o uniforme da escola, portanto vestia uma calça jeans e uma camiseta chumbo com os dizeres “Exército de Cristo...” escrito na frente. Os três pontos me deixaram intrigadas para saber o que estava escrito atrás. Mas não muito, apenas porque sou extremamente curiosa. O que uma maldita camisa religiosa poderia ter de interessante? Ele rabiscava algo em seu caderno, a cabeça baixa, parecendo alheio ao mundo exterior. Por algum motivo bizarro eu queria fazer parte daquele mundinho.
Após terminar a chamada a professora perguntou seu nome.
Alexander. Com pronúncia inglesa: “Aleczander”. Achei atípico. Simpatizei com o nome dele. Eu devo ser realmente maluca.
Eu o achei bonito mas não sei se ele poderia ser considerado assim. Cabelo liso, preto, caído em uma franja escondendo a testa, magro, pele branca e olhar perdido. Ele deveria ser tão maluco quanto eu. Simpatizei com a maluquice dele.
Na hora do intervalo eu consegui ler o verso de sua camiseta: “...Extermina os cristãos.” “O exército de Cristo extermina os cristãos”. Que tipo de pessoa usa uma camiseta com esses dizeres?
Simpatizei com a camiseta dele.
O ano terminou e não me lembro de ter trocado mais do que 3 palavras com Alexander. Ele também não se tornou muito popular.
Por Devon, em 3:49 PM |
Capítulo 04
Me inclinei sobre o bolo e soprei a velinha de 4 anos que estava delicadamente adornando o bolo. Segundos depois o telefone tocou. Minha mãe foi até a cozinha atender e voltou chorando. Sua irmã correu para acudí-la e então a festa acabou.
Terminei a noite dormindo em um banco desconfortável, ao lado do caixão com o corpo do meu pai.
Por Devon, em 3:49 PM |
Capítulo 03
Eu os escutei brigando no quarto ao lado. Aumentei o som do meu discman mas minha mãe consegue gritar mais alto que Axl Rose. Ele disse que não podia mais viver com uma puta e uma louca. Infelizmente, não sou a puta. Quem dera. Quinze anos e ainda sou virgem. Um som seco. Um tapa. É o fim. O Mauro vai deixar essa casa e minha mãe vai me culpar. A vida é injusta.
Por Devon, em 3:48 PM |
Capítulo 02
— Muito bem, Bianca, agora me diga o que você vê.
— Uma mancha de tinta preta.
— Hum... E agora?
— Outra mancha de tinta.
— OK. E agora?
— Moça, qual o sentido disso?
— São apenas alguns exames, Bianca.
— Por quê? Eu estou doente?
— Não, não... São apenas exames.
— Certo.
— E então?
— Outra mancha preta.
Por Devon, em 3:48 PM |
Capítulo 1
— BIANCA? BIANCA? Oh, Bianca, você está aí.
— Ele parou de se mexer, mamãe.
— Meu Deus, Bianca, o que aconteceu? Você está machucada?
— Não.
— Está sangrando?
— Não é meu... É do Tóbi.
— O que... O que você fez? MAURO, MAURO, VENHA AQUI!!!
Por Devon, em 3:48 PM |
Sabor Agridoce
Prólogo
Eu entrei em casa com um pacote da lojinha de exotéricos.
— Oi filha, não foi pra faculdade hoje?
— Não. Não estava no clima.
— Quer jantar?
— Não, mãe, obrigado. Só quero tomar um banho.
Subi a escada, segui para o banheiro, deixei o pacote em cima da mesinha e abri a torneira de água quente. Enquanto a banheira enchia, comecei a me despir.
Nua, segui para o meu quarto e peguei meu CD player. Após ligá-lo na tomada do banheiro, coloquei a última coletânea que eu havia gravado. A primeira faixa era uma música do Bob Dylan, “The Times They Are A-Changin'”.
De frente para o espelho fiquei apreciando meu corpo nu.
Não era feia, pelo contrário, sabia que despertava desejos em um número considerável de machos.
Meu cabelo era liso, preto comprido e sedoso, meu corpo era esbelto e esguio, meus traços, muitas vezes confundidos com orientais, outras, com indígenas, me concedia uma beleza um tanto mística.
Comecei a alisar minha face com as costas da minha mão. Fui descendo, passando pelo pescoço, me demorando em acariciar meus seios, meu ventre e parei em meu sexo. Há muito não me masturbava, pois me sentia um tanto quanto ridícula, mas naquele dia não. Pensei então o quão idiota era me privar das minhas carícias, uma vez que nenhum homem sabia me tocar como eu me tocava.
Um momento de prazer. Um último orgasmo.
Após passar a tremedeira em minhas pernas, desliguei a torneira e comecei a colocar as velas perfumadas em volta da banheira. Após acendê-las, abri um maço de cigarros que comprara no caminho para casa. Não tinha esse vício, mas para aquela ocasião, achei propício. Traguei a fumaça e acabei me engasgando. Não gostava do gosto, do cheiro, mas fumei, sentada no vaso, com as coxas úmidas, até o final.
Entrei na banheira e senti a sensação agradável da água aquecendo meu corpo. Fiquei alguns minutos assim, entorpecida, talvez pelo efeito da nicotina em minha corrente sanguínea, desacostumada com tal elemento.
Abri os olhos e retirei uma lâmina da embalagem que havia colocado próxima a uma das velas.
Ao fundo, “Love Hurts”, do Nazareth.
Respirei fundo e comecei a traçar verticalmente um corte em meu pulso esquerdo. A dor me concedeu prazer e tive medo. Pensei em desistir, pensei em minha família, mas fiquei hipnotizada pelo líquido rubro que escorria do meu braço.
Agora era tarde demais.
Com a mão fraquejando, passei a lâmina no pulso direito.
Recostei-me na banheira.
Conforme a água assumia uma coloração vermelha, eu fui sentindo os olhos pesarem.
E então, segundos antes de tudo ficar escuro, minha vida passou diante dos meus olhos.
Por Devon, em 10:48 AM |
ATENÇÃO!!!
Comece a ler de baixo para cima.
O romance se inicia no Prólogo (óbvio...)
Por Devon, em 10:24 AM |
A Verdade do Tempo
Epílogo
Marina corria alegremente pelo parque. E então, viu um homem encostado em uma árvore. Ela já tinha visto a foto dele nas coisas de sua mãe tempos atrás, mas quando perguntou quem era, Natália arrancou a foto de sua mão e começou a chorar.
— Oi, moço!
— Olá, pequenina!
— Eu conheço você, não conheço?
— Bom, da última vez que você me viu, você era bem pequena... Não pensei que você fosse se lembrar de mim. Com quantos anos você está agora?
Marina fechou o dedão contra a palma da mão e manteve os quatro dedos levantados.
— Assim, ó! - ela disse.
Quatro anos.
Então haviam se passado quatro anos. Não havia noção de tempo no lugar onde ele estava.
— Mas por que a mamãe chorou quando eu mostrei sua foto pra ela?
— Não sei. Não sei mesmo. Talvez eu seja uma lembrança triste na vida dela...
— Moço, qual seu nome?
— EI, MARINA, VENHA AQUI! - Natália gritou, um pouco distante de onde os dois conversavam. E então, quando viu o rosto do homem encostado na árvore, saiu correndo em direção aos dois, pois não podia acreditar no que vira.
O homem sussurrou alguma coisa no ouvido da criança, e quando ela se virou para olhar para sua mãe, o homem seguiu para trás da árvore, como se fosse contorná-la, mas não saiu do outro lado.
— Com quem você estava conversando? - indagou a mulher.
— Com o moço da foto que te deixa triste.
Natália sentiu cada osso do seu corpo congelar.
— E... E o que ele disse pra você?
— Ele falou: "Diga pra sua mamãe que eu ainda a amo"...
Suas pernas fraquejaram e Natália foi de joelhos ao chão.
E então, gotas de chuva começaram a cair do céu, misturando-se com suas lágrimas.
Bem longe dali, guardada dentro de um baú escuro, uma foto antiga e amarelada, onde dois adolescentes apaixonados se abraçavam, começou a mudar. E no rosto do garoto, apareceu um sorriso. Um misto de felicidade e profunda tristeza. Talvez por conta do clima úmido do baú, talvez por conta das goteiras que havia no quartinho onde o baú estava guardado, ou talvez por outro motivo... Mas se alguém olhasse a foto com cuidado, perceberia que a parte da face abaixo dos olhos dele estava molhada...
Por Devon, em 10:13 AM |
A Verdade do Tempo
Capítulo 25: Fim
Queria matá-la. Mas ela é a mãe da minha filha. E minha filha é a coisa mais importante para mim nesse mundo.
E ao final das contas, eu que era o assassino. Eu que tinha abandonado minha família, fugido de casa, agredido meu pai, matado duas pessoas... Eu que tinha feito tudo isso. Tudo isso por causa dela. Para ficar com ela. Para sempre, para fazê-la feliz. Para dar mais conforto para a vida dela. Tudo para ela.
Eu era o assassino. Eu era o miserável. Eu que não merecia estar vivo.
CLICK...
Foi muito triste voltar do meu primeiro dia de serviço e não poder contar pra você, é muito difícil saber que não vou te ver no final de semana, é muito difícil ter certeza de que não vamos mais dormir abraçadinhos, que não vou mais acordar do seu lado, olhar sua carinha de sono e beijar sua boca com gosto de "manhã". Foi muito difícil tirar suas fotos do meu porta-retratos, assim como mudar o seu nome para Natália no meu celular. É foda colocar para baixo na minha agenda e ter como primeiro nome Adriana, uma mina que nem sei por que tenho o telefone.
Foram oito horas dolorosas, com a esperança boba de que a qualquer momento você ia entrar por aquelas portas, foi doloroso ver seu rosto em cada garota ruiva de cabelos lisos (eu trabalho em Higienópolis, imagina quantas ruivas de cabelo liso não tem por lá). Foram oito horas em que, a cada dez minutos, pensava em não te ter nunca mais e ter que controlar o choro. Foi duro ter que rir de piadas que não me faziam rir, pois estava chorando por dentro, foi duro escutar músicas que lembravam nossos momentos juntos. Foi difícil ver a capa dos livros do Sidney Sheldon, da coleção do Harry Potter, do Código DaVinci e de todos os livros, que, de alguma maneira, me lembravam você. Foi triste sair para o almoço e não te ligar, como fazia na McInternet. Foi difícil entender que você nunca irá me buscar no serviço. É doloroso saber que nossas bocas nunca mais vão se tocar, e nem nossos corpos irão se encontrar.
É muito triste saber que não ficaremos juntos para sempre, é muito triste entender que acabou, é muito triste descobrir que você não me ama mais...
BANG!
Por Devon, em 10:13 AM |
A Verdade do Tempo
Capítulo 24: Dead wish.
Após a morte de minha vó, as coisas pareciam piorar. Eu estava mais triste, mais amargo. Talvez por isso eu não vi o que estava acontecendo.
Eu tinha acabado de conseguir um emprego de vendedor de livros na Livraria Siciliano do Shopping Higienópolis. Não precisava de dinheiro, mas gostava de estar perto de livros e coisas assim. Eu planejava escrever um livro. Uma história maluca sobre sociedades secretas que governavam o mundo desde a criação do ser humano. Estava ficando bom.
Mas então, depois do meu primeiro dia de trabalho, a Natália me chamou para conversar.
— Rafael, precisamos conversar.
Rafael. Ela me chamou de Rafael. A coisa nunca era boa quando ela me chamava assim.
— Que foi?
— Mês que vem vamos completar seis anos juntos... E eu parei para pensar em tudo que passamos e tal. Você é um ótimo amigo e um pai maravilhoso, mas ultimamente não estou conseguindo te ver mais como marido.
Eu estava bebendo um Johnnie Walker e me engasguei na hora.
— Como é que é?
— Faz tempo que tenho pensado nisso, mas... Não sei... Não sei se é rotina, não sei se é porque começamos a namorar muito cedo e eu não aproveitei a vida, não sei... Só sei que não consigo mais ser sua esposa... Eu... Eu já dei entrada no divórcio...
O copo de whisky arrebentou na parede. Natália protegeu o rosto. Marina acordou com o barulho e começou a chorar.
— O QUÊ? VOCÊ O QUÊ?
Ela ficou petrificada de terror.
— FALA, PORRA, VOCÊ FEZ O QUÊ?
— Não grita, a menina tá chorando!
— EU... EU... Vá colocá-la para dormir... Eu vou sair... Vou sair daqui... Quando eu voltar, quero você bem longe.
— A Marina vai comigo!
— O que? Não, não vai não... Quero ver quem vai tirá-la de mim!
— A justiça não vai deixá-la com um assassino.
Queria socá-la, queria espancá-la, queria pegar minha arma e descarregar todas as balas nela. Mas não consegui. Não poderia fazer isso com a mãe da minha filha. A mulher que eu amava.
Peguei meu maço de cigarros, meu Zippo e saí, batendo a porta. Entrei no meu carro e fui dirigindo. Dirigi até não agüentar mais de sono. Dormi em um pequeno hotel, no Rio Grande do Sul.
Durante a noite, fui até o meu carro, peguei meu revólver e voltei para o quarto. Tomei quase meia garrafa de Blue Label e quatro cervejas. Estava completamente bêbado. Em seguida, enfiei o cano da arma na minha boca. Eu nem sequer lacrimejava. Contei até dez. Puxei o gatilho.
A arma estava descarregada.
Coloquei as seis balas no tambor, engatilhei o revólver e o coloquei novamente em minha boca.
Por Devon, em 10:13 AM |